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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Casamento na Coreia – Sessão de fotos

Após o post sobre o moderno modelo de cerimônia de casamento na Coreia do Sul, achei que tinha uma parte desse processo que merecia destaque: a sessão de fotos que os noivos fazem antes da grande data, também chamada de 웨딩촬영 (wedding tchalyong). Principalmente porque, quando postei no Facebook as minhas, recebi muitos elogios de amigos e certas pessoas vieram me perguntar mais detalhes e agradecer, porque elas teriam se inspirado no meu ensaio para fazer algo parecido. Como sei que meu book estava até fraquinho comparado com outras sessões de casais coreanos, decidi mostrar alguns exemplos dos vários tipos existentes e explicar como acontece por trás das câmeras.

Modelo mais tradicional de foto
Foto: The Bride Studio
Vestidos esvoaçantes aparecem bastante nesses books
Foto: ephotoessay

Primeiramente, como já havia explicado no post anterior, é bom entender que, na maioria das vezes, essas fotos já vêm inclusas no pacote de casamento que se contrata com o wedding hall. E elas fazem parte de todo o sistema, porque, na data da cerimônia, são elas que ficarão na porta do salão e que indicarão para os convidados que eles não estão no casamento errado, já que podem estar acontecendo vários eventos ao mesmo tempo no mesmo prédio. Então, além de serem bonitas e glamurosas, também acabam sendo úteis para o padrão de casamento coreano. Na nossa cerimônia, tinham os três quadros com a seleção que fizemos das melhores poses.

Um dos quadros que ficavam na frente do nosso salão e eu vestindo o hanbok
Foto: Jerry Choi

Como cada casamento tem um tempo de preparação diferente (entre três meses e um ano, em média), a data para a realização do ensaio pode ser modificada. Se o casal começar a organizar tudo com certa antecedência, pode até escolher a melhor estação do ano para fazer fotos externas (tem quem prefira neve, flores ou o colorido do outono) e isso fica a critério dos noivos. Muita gente também insere as fotos do book nos convites de casamento para mandar aos convidados. No nosso caso, meu marido trabalha no exterior e só chegava à Coreia durante as férias dele, uma semana antes do casamento, e, por isso, tivemos que correr com tudo e as fotos acabaram ficando prontas apenas a quatro dias da cerimônia.

Foto externa em estilo "verão"

Casal em ambiente mais urbano
Foto: DuoWed 
Simulação de neve para provável casamento no inverno
Foto: Poem Photography
Convite de casamento usando fotos do book
Casal: Kim Jeongeun e Kang Minwoo
   
No estúdio em que fizemos as fotos, pelo curto tempo que nos restava, o ensaio foi todo interno, em um único dia, e com duração de cerca de 4h. Só levamos de casa o 한복 (hanbok), roupa tradicional coreana, que alugamos numa loja. Todo o restante foi providenciado pelo estúdio. Eles me pediram para não colocar nada no rosto e para lavar o cabelo somente com shampoo (achei que a juba ia ficar tensa, mas até que não foi tão ruim). Chegamos lá ao meio-dia, hora em que começamos a ser maquiados. No cabelo, ela não tinha mexido, o que me deixou preocupada.

A maquiagem para a sessão de fotos
Outro modelo de hanbok, roupa tradicional coreana

Logo depois, fui informada de que haveria cinco trocas de roupas e penteados e eu poderia escolher uma opção de cada tipo de vestido: rodado, colado, mini, colorido e o 한복 (hanbok) que eu havia levado. Todos eram tão lindos que ficava até difícil dizer qual era o melhor. Assim que selecionei o modelo com saia em A (como na foto abaixo), a cabeleireira apenas colocou uma presilha na minha cabeça e demos início à primeira parte da sessão de fotos. Os cenários eram em padrão europeu clássico, com poltronas incríveis e a luz que batia naquela hora ajudava a dar um ar angelical. O fotógrafo era um coreano maluquinho com cara e estilo de japonês, mas a qualidade do serviço era inegável. Eu e meu marido estávamos meio nervosos e não conseguíamos sorrir no começo, mas logo ele foi nos deixando mais à vontade.

Cenário em estilo europeu clássico
Modelo com saia em A e terno clássico
Fotos: Poem Photography

Acabada a primeira parte, era hora do vestido colado e acabei escolhendo um com uma super cauda. Também mexi no cabelo e fiz um penteado mais clássico, com coque e uma coroa. Esse andar era o que tinha os cenários mais bonitos, com flores de cerejeira e uma decoração no mesmo estilo da locação anterior. A terceira opção, o mini vestido, era para fotos que simulavam ambiente externo, no terraço do estúdio, com uma bicicleta, umas plantas e cenários igualmente fofos. O cabelo ainda estava um pouco parecido com o anterior, embora mais despojado. Com essa roupa, também posamos em uma janela gigante.
Flores de cerejeira, símbolo de alguns países orientais
 


Vestido mini em ambiente externo


Fotos: Poem Photography

Para acabar o ensaio, faltava apenas o vestido colorido, que eu optei por um amarelinho claro, já que era primavera, e ficou bem gracioso combinando com as flores do cenário (nem foi de propósito). No final, colocamos o hanbok e fomos para a locação em estilo tradicional coreano, com os patinhos ao fundo simbolizando o amor eterno do casal e aquele ambiente oriental, em que simulamos servir chá um ao outro e fizemos pose com as mãos posicionadas na altura da barriga, na forma mais antiga dos coreanos se posicionarem. Depois, como nosso casamento era na próxima semana, o fotógrafo descarregou as mais de 300 fotos tiradas para que possamos selecionar as 18 opções para impressão e as que seriam usadas na cerimônia.   
  




Fotos: Poem Photography

Em relação aos valores, como disse anteriormente, o ensaio estava incluso no pacote do casamento, mas eles discriminaram cerca de 1,5 milhão de wons (uns três mil reais), o que cobria os custos de maquiagem, cabelo, aluguel dos quatro vestidos e as fotos em si (fotógrafo e edição), além de um DVD com o registro do dia, um quadro gigante com uma foto na horizontal, outro com quatro outras menores e cinco porta-retratos. Não é barato, mas nada com um preço tão absurdo se comparado à qualidade do serviço prestado e à rapidez com que eles foram obrigados a aprontar tudo. Espero que tenham gostado e fiquem com outra foto clássica desse tipo de sessão (fundo preto):

Foto: Born Wedding Studio

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Casamento na Coreia do Sul – Cerimônia

Depois de mais de seis meses sem nenhuma atualização, tenho que pedir desculpas, mas, além de ocupada, não estava muito animada para escrever. Agora que voltei para uma temporada no Brasil, tomei coragem para retomar os posts. E, nesse tempo, tanta coisa aconteceu. Terminei três níveis do curso de coreano, ganhei bolsas de estudo por ficar entre os melhores alunos da turma, casei (no civil) no final do ano passado com o coreano com quem já namorava há quase quatro anos, assim que ele conseguiu um emprego na Nigéria e foi para lá em janeiro e, depois disso, fiquei morando apenas com meus sogros.

Sessão de fotos pré-casamento, trajando 한복 (hanbok), veste tradicional coreana
Foto: Poem Photography
Um dos fatos mais recentes, no entanto, foi a minha cerimônia coreana de casamento, realizada no dia 7 de junho na cidade de Daejeon. E decidi compartilhar com vocês como aconteceu tudo, desde a escolha da data até os detalhes da “festa” (assim mesmo, entre aspas) e comparar um pouco com o que é no Brasil. Para quem não sabe, numa tentativa de ocidentalização, os coreanos vêm mudando um pouco algumas tradições. Primeiramente, vou levantar alguns pontos importantes para que seja fácil para um brasileiro entender todo o processo de casamento na Coreia:

- Atualmente, as cerimônias de casamento coreanas acontecem, em sua maioria, em “wedding halls” ou salões de casamento modernos, que geralmente são em hotéis ou em prédios próprios para isso. Embora o número de cristãos seja cada vez maior na Coreia, eles mantêm esse padrão, diferentemente do Brasil, onde há uma tradição de se casar na igreja e depois fazer uma festa em um salão. Mas não adianta tentar comparar nossos salões de festa com os coreanos. Eles são muito diferentes.


Salões de casamento: em prédio próprio (cima) e hotel
Fotos: Ariane Rodrigues

- Os wedding halls padronizam, geralmente, pacotes fechados, em que tudo está incluso. Se você quiser tirar algo, eles vão continuar cobrando o mesmo preço. No local onde eu casei, o valor já englobava até a sessão de fotos pré-casamento, também conhecida como 웨딩촬영 (wedding tchalyong), mas eu podia escolher entre quatro opções de estúdios que eles tinham disponível (uma das fotos segue abaixo). Além disso, estava incorporado ao pacote: o aluguel do vestido e do terno, o bolo, o buquê, a maquiagem da noiva e do noivo, os tickets para o restaurante, além das comidas especiais a serem utilizadas durante o 폐백 (pyebaek), que é a cerimônia especial coreana em que os noivos se curvam para os familiares mais velhos e que acontece depois da parte “moderninha”, mas quase ninguém participa.


Foto: Poem Photography
- A escolha do dia do casamento não é aleatória. Muitos coreanos acreditam que existe uma data auspiciosa para isso. Por isso, é comum eles procurarem cartomantes ou videntes que dizem quais são os dias bons para casar. Como meu noivo trabalha na Nigéria e só tem férias de três em três meses, eu queria marcar para maio a nossa cerimônia. Seria ótimo para ele e para mim, porque meu curso de coreano acabava justamente na metade desse mês. A questão surgiu quando minha sogra procurou a cartomante e veio a resposta: não existia data legal para casamento em maio. Teria que ser em junho. Como eu não queria criar problemas, aceitei numa boa.

- Casamento na Coreia é sinônimo de lucro. É uma oportunidade da família do noivo “recuperar o investimento” feito ao participar das cerimônias de filhos de amigos e familiares, além de cobrir os custos da “festa”. Isso porque os coreanos se presenteiam com dinheiro (dentro de um envelope branco), que, por um padrão deles, é geralmente de 30 mil wons (uns 60 reais) para colegas de trabalho, ou 50 mil wons (cerca de 100 reais) para quem não é tão íntimo e um valor que chega até 1 milhão de wons (2 mil reais), no caso de parentes ou amigos muito próximos. É por isso que a lista de convidados geralmente é organizada pelos pais dos noivos e a maioria das pessoas presentes na cerimônia é desconhecida para o casal. Para quem tem curiosidade sobre valores, nós gastamos mais ou menos uns 10 milhões de wons (20 mil reais) no total e recebemos dos mais de 250 convidados o equivalente a 20 milhões de wons (40 mil reais), ou seja, o dobro. Mas eu também ganhei presentinhos fofos dos meus amigos chineses:

Foto: Ariane Rodrigues

- Esqueça a ideia de “festa de casamento”. O lema na Coreia é ser rápido e, como eles mesmos dizem, o negócio é ir, dar o dinheiro, comer e ir embora. Diversão é coisa de nós brasileiros e outros ocidentais. As cerimônias coreanas acontecem geralmente num sábado, começando entre 11h30 e 14h30 (como mostra as fotos abaixo). E a duração total é de, no máximo, 30min. Logo depois, os convidados seguem para o restaurante que fica dentro do wedding hall, onde tem um bufê liberado. A maioria nem consegue falar com os noivos, porque esse restaurante normalmente é compartilhado com todos os convidados dos outros casamentos daquele dia, que dependendo do porte do local, pode ter até umas dez cerimônias acontecendo ao mesmo tempo ou em horários seguidos. Na entrada do hotel, para os convidados não se perderem, fica uma informação sobre o salão onde será realizado cada casamento, com os nomes e/ou fotos do casal:  


Fotos: Ariane Rodrigues

- Na Coreia, não existe o mesmo suspense para a entrada da noiva como é no Brasil. Na verdade, o noivo geralmente escolhe o vestido junto com a mulher. E, quando contei sobre essa tradição brasileira, os coreanos acharam estranho o fato de que talvez as roupas dos dois não estejam combinando durante a cerimônia (mesmo que eu ache que terno SEMPRE vai ficar bem com qualquer vestido). E, como tudo começa no início da tarde, o casal tem que chegar umas 7h da manhã para se preparar e acaba que o "dia da noiva" brasileiro acontece dentro do próprio wedding hall, onde ela fará cabelo, maquiagem e colocará a roupa juntamente com os outros noivos daquela data e os familiares de todos eles. Além disso, existe uma salinha de espera onde a noiva fica sentada num tipo de "trono", a partir de uns 30min antes do casamento, como se fosse uma princesa. Daí, os convidados entram para cumprimentá-la, dizem como ela está bonita, tiram algumas fotos juntos ou ficam batendo um papo antes de começar o evento.


Foto: Jerry Choi (o noivo)

- A cerimônia coreana geralmente é dirigida por um orador do wedding hall, mas isso pode ser modificado dependendo da religião ou do interesse do casal. É possível convidar pastores, padres, monges budistas, qualquer líder, religioso ou não. Hoje em dia, como o número de evangélicos e protestantes tem sido crescente no país, a maior parte delas conta com a participação de pastores. Além do orador, também há um cerimonialista, que, no nosso caso, foi a irmã do meu marido, que é garota do tempo na SBS, uma das grandes emissoras da TV coreana.


Na primeira foto, o orador e, na segunda, os pais, a irmã e o cunhado do meu marido 

- Embora tudo tenha que ser rápido, existe um padrão. Começa com uma apresentação do cerimonialista sobre o casal, seguida da entrada do noivo sozinho e da noiva com o pai. No nosso caso, entramos juntos, porque meu pai não pôde estar presente. E a marcha, com ou sem música, é quase uma corrida. Na maior parte dos casamentos, não existe a figura dos padrinhos, algo diferente do Brasil. Depois, o orador faz um discurso (incompreensível para mim), uma pessoa canta uma música para o casal, os noivos cortam juntos, com uma faca que parece espada de samurai, um bolo que só eles vão comer (e os convidados ficam babando). Eu fiz um mini discurso para o pessoal ver que eu sei falar o idioma deles e, antes da nossa saída, meu marido gritou três vezes: “Ariane, tá bom”, em referência ao uso que os coreanos fazem dessa expressão brasileira, com significado bem parecido com o nosso.

- Assim que os noivos saem, eles têm que voltar para uma sessão de fotos e registrar a presença dos convidados. Começa com o casal sozinho para depois entrarem os familiares (pais e irmãos), a que se juntam os outros parentes mais tarde (tios, primos, avós, etc). Por último, os amigos dos noivos se reúnem e, além disso, o fotógrafo pede para simular algumas ações para as fotos. Por exemplo, ele pergunta quem vai pegar o buquê e então a noiva joga as flores para trás e essa pessoa segura e depois devolve para as mãos da noiva, que continua a fazer poses. Seria bem parecido com o Brasil, se não fosse pela ausência do simbolismo de que essa seria a próxima mulher a se casar.


Foto de cima: jogando o buquê para a Mirella (brasileira que conheci na Coreia) pegar
Foto de baixo: só os parentes do meu marido (e ele disse que não tem nem metade)

- Enquanto todos os convidados se dirigem para o restaurante, os noivos correm para trocar de roupa, colocar o 한복 (hanbok), veste tradicional coreana, e começa o 폐백 (pyebaek), uma cerimônia à parte, que só fazem parte os familiares do casal.  Há vários ritos que precisam ser seguidos, como os noivos ficarem ajoelhados um de frente para o outro, fazer “love shot”, a mulher segura uma tâmara com a boca e o marido tem que tentar tirar. Os pais do noivo atiram nozes e tâmaras e a noiva tem que segurar tudo com a roupa e, quanto mais conseguir pegar, mais sorte terá o casal. Além disso, os anciãos da família se sentam e os noivos têm que servir uma bebida alcoólica, enquanto eles comem algum dos itens disponíveis na mesa, como um bolo de arroz chamado 떡 (tteok), nozes, amêndoas, tâmaras, entre outras coisas. Depois de se curvar para os familiares, eles dão um dinheiro extra para a lua-de-mel, como se fosse a "gravata" brasileira. Basicamente, acontece tudo como no vídeo a seguir (eu fiz quase do mesmo jeito, ou deveria fazer):


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Esse foi um resumo de como é um casamento na Coreia. Dei mais o ponto de vista dos noivos, porque é o que eu conheço mais. Como espectador, talvez o relato fosse um pouco diferente. Espero que tenham gostado e, ainda essa semana, vou preparar mais um post sobre a sessão de fotos pré-casamento, que todo mundo adorou e foi a minha parte favorita de todo o processo. Depois, escrevo sobre o casamento civil, que é muito mais barato e menos burocrático que no Brasil. Até a próxima!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Isso que é transporte público! – Parte 3 (Trem-bala)

Há umas duas semanas, eu estava assistindo na KBS (emissora pública de televisão coreana) uma reportagem sobre um novo trem-bala comprado pelo governo daqui, que é a versão atualizada do Korea Train Express (KTX, ou “keiti”, como o povo local carinhosamente chama). De acordo com o que eu entendi (com a ajuda do meu noivo), os vagões já estão prontos (e parecem como o protótipo da foto abaixo) e agora eles estão fazendo o processo de adaptação dos trilhos e plataformas de acordo com as necessidades do veículo.

Modelo experimental do novo trem-bala coreano
Foto: KORAIL

                Atualmente, a Coreia tem o sexto transporte mais rápido do mundo nesse gênero, com uma velocidade máxima que chega a 350km/h. Já a nova aquisição aumentaria esse limite para 430 km/h, o que faria com que o país dividisse com o Shinkansen, trem-bala japonês,  a quinta posição no ranking mundial feito este ano pelo Top Ten Collections. Só perderia para os modelos alemão (4º), chinês (3º), francês (2º) e para a nova versão japonesa, chamada Japan’s JR, que é a atual líder e pode alcançar incríveis 580km/h.


Atual padrão do KTX, que vai ganhar novo design

Trem-bala coreano liga Seul a Busan e Mokpo
                
O projeto do KTX antigo já era bonito, mas agora ele vai ficar ainda mais moderno e tecnológico, resultado do trabalho de professores de design industrial da Korea National University of Arts, em Seul. E é extremamente útil para cruzar o país em cerca de 3h. A malha ferroviária do país liga a capital sul-coreana a duas cidades litorâneas: Busan, na costa leste (330km); e Mokpo, no oeste (320km). E ambas têm Daejeon como hub, por ser a maior metrópole no centro da Coreia (o que é ótimo para mim).

O preço também não é tão absurdo assim. A primeira classe da viagem mais longa sai por 62 mil won (em torno de R$ 124), enquanto que a mesma passagem pela econômica custa 45 mil won (cerca de R$90). De Daejeon, por exemplo, eu não gasto mais que uns R$50 para qualquer lugar que eu vá, o que não é caro, se pensar nas facilidades que um transporte como esse oferece: conforto e rapidez. E você pode reservar sua passagem pelo site da Korail (empresa que administra o sistema ferroviário coreano), além de verificar online quantas vagas há disponíveis.



Conforto é um dos pontos positivos do KTX 

É possível também embarcar mesmo quando não há assento livre. Mas o passageiro paga um valor reduzido e pode desfrutar da viagem no bar que fica em um dos vagões (geralmente no de número quatro e não sei se tem algo a ver com a superstição oriental, que eu mencionei em um dos meus primeiros posts). Eles disponibilizam umas poltronas nesse lugar preferencialmente destinadas às pessoas da terceira idade e às outras prioridades. No entanto, nada impede que qualquer um sente lá.


Esse é o projeto interno do novo KTX: menos poltronas e mais conforto
Foto: KORAIL

Outro ponto interessante é que, para entrar nas plataformas ou dentro dos trens, não tem ninguém para receber a sua passagem. Dessa forma, eles apenas controlam a quantidade de pessoas por uma maquininha que um funcionário carrega enquanto passa pelas poltronas. Somente se ele achar que há alguma movimentação estranha, é que pede para ver os bilhetes. Caso contrário, está tranquilo.

 Eu já passei por essa revista quando embarquei no esquema de ficar em pé. Só que eu e meu namorado ficamos perto da parte de bagagens (localizada na interseção dos trens). O rapaz não gostou muito e pediu para ver nossas passagens. Mesmo mostrando, o cara ainda ficou emburrado. Engraçado que tinha um outro cara naquele setor de terno e gravata e não fizeram o mesmo com ele. Aparência é tudo, não?

O compartimento das bagagens onde há maquininhas de bebida e comida e duas cadeiras


Outro problema que eu tive com o KTX foi quando andei de bicicleta até Mokpo. É que eu não sabia que estava tendo um Grand Prix de Fórmula 1 na cidade. Quando chegamos à estação para comprar as passagens para voltar para Daejeon (como não existe linha de ônibus que conecte as duas cidades, era a única forma), às 17h, estava tudo esgotado até o fim do dia. Só conseguimos uma vaga (em pé, lógico), para o trem que partia às 23h. Mesmo assim, o serviço foi bom. E eles deixaram a gente carregar nossa bicicleta.

Estação de Mokpo, cheia de gringos e turistas que foram ver a corrida

Da primeira vez que peguei o KTX, no ano passado, foi engraçado que meu namorado me disse que a gente sairia às 8h. Achei que fosse a hora de sair de casa, mas esse era, na verdade, o horário que o trem partiria. E eu não sabia. Nós corremos loucamente para embarcar na composição com destino a Busan. E, finalmente, conseguimos. Só que, quando fomos sentar, tinha alguém no nosso lugar. Foi quando descobrimos que pegamos o trem do horário de 15 min antes do nosso. Conclusão: tivemos que ir em pé até Taegu para embarcarmos corretamente.


Mesmo com esses contratempos que eu tive com o trem-bala coreano, eu recomendo inteiramente que o turista use esse sistema. É bastante prático e simples (algumas vezes, nem tanto). Além disso, a visão da janela é encantadora. A Coreia tem paisagens lindas e montanhas únicas, que podem ser observadas de dentro do vagão. Sem contar nos rios e nas cidades mais iluminadas que pisca-pisca (algo que eu posso falar em outro post). Só de pensar, dá até vontade de viajar nessa belezura de novo.

Vista da janela do trem
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Esse foi o terceiro post da série “Isso que é transporte público!”, sobre os meios de locomoção na Coreia do Sul. As duas publicações anteriores podem ser lidas nos links abaixo. Embora eu tivesse dito que iria falar sobre metrô também, vou deixar isso para depois. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Isso que é transporte público! – Parte 2 (T-Money, o "Bilhete Único" coreano)

Pagar o táxi (ou até o ingresso para um parque de diversões) com “Bilhete Único”. Fazer cinco integrações pelo valor de apenas uma tarifa. Usar o cartão de crédito para custear o ônibus ou o metrô. Esses pequenos detalhes que tornam mais prático o transporte público podem soar um pouco distantes da realidade brasileira, mas já funcionam desde 2004 na Coreia do Sul. E tudo isso está inserido em um projeto chamado “T-Money”, que é uma série de cartões recarregáveis usados no transporte ou em lojas de conveniência. E o mais legal é que um sistema padronizado que funciona em todas as grandes metrópoles do país (que são só seis, incluindo Daejeon, onde eu estou morando) e em mais umas 20 cidades menores. 

Táxi com placa avisando que aceita o T-Money (atualmente quase toda a frota conta com a máquina) 

Isso significa que, se fosse no Brasil, eu poderia usar o meu “Bilhete Único” (BU) carioca para pegar o transporte em São Paulo, e, inclusive, pagar o meu almoço em uma loja de conveniência (que, embora não sejam comuns em território brasileiro, aqui na Coreia o que você mais vê na rua são essas redes abertas 24h. Ex: GS 25, CU, 7 Eleven, Ministop, entre outros). E eu adoro essa praticidade, que tem tudo a ver com o nome do sistema. O “T” de “T-Money”, é um genérico para vários conceitos como trânsito (traffic), tecnologia (technology), viagem (travel) e toque (touch). Na primeira vez que eu vim à Coreia, no final de 2012, eu tinha ficado abismada principalmente com o fato de que eu podia usar esse cartão para pagar o táxi. Depois de dois meses morando aqui, eu já me acostumei a ele e sou testemunha de como tem dado certo.

Máquina do T-Money para passar o cartão 

Basicamente, há várias opções de cartões recarregáveis, que custam entre 2,500 e 3,000 wons (em torno de uns R$5,50, em média) e dá para comprar em vários lugares, contando ainda com máquinas para recarregar. Um pouco parecido com o BU carioca nesse aspecto. A novidade coreana é que você pode vincular o seu cartão de débito do banco ao T-Money, o que pode ser um pouco perigoso, pois, se a pessoa for desastrada como eu, que vivo perdendo as coisas, já era. Como não precisa de senha, é muito fácil alguém acabar com todo o dinheiro do cartão quando achar na rua (depois faço um post explicando como funcionam os sistemas bancários). A diferença é que o povo aqui tem outra cultura. Eles não são tão malandros quanto os brasileiros e provavelmente procurariam um meio de devolvê-lo caso o encontrassem na rua. Mas aí é outra história.

Para usar o sistema, basta encostar o cartão na máquina que fica disposta próxima à porta de entrada do ônibus ao lado do motorista. Ou, se for metrô, é só passar na catraca. Ela vai emitir um barulhinho e dizer “obrigada” em coreano. Se der algum erro, existem outras mensagens gravadas, como “por favor, passe novamente o cartão” ou “saldo insuficiente”. Tudo em coreano. Para a integração funcionar, ao sair do veículo, é preciso encostar novamente o cartão em outra máquina perto da porta de saída, ou, no caso do metrô, em outra catraca. A partir desse momento, você tem 40 minutos para fazer a integração. Essa é uma ideia que funcionaria muito bem no Rio, onde o intervalo de 2h tinha sido muito criticado no início, já que às vezes a pessoa pode passar até mais de 3h dentro de um ônibus com aquele trânsito caótico. 
  
 Esse sinal verde aparece quando seu cartão é aceito (tanto na entrada quanto na saída)  

Descontos: Tarifas de integração e por idade

 Em Seul, que é uma das cidades no mundo com maior número de habitantes por m2, o sistema é bem complexo e o pessoal tem que ser muito bom em matemática. Mas também é possível instalar um aplicativo no celular para fazer essas contas por você. Quem tem um cartão do T-Money pode pegar até cinco transportes diferentes da mesma categoria (são quatro diferentes), pagando apenas o valor de uma tarifa, que varia entre 850 wons (R$1,70) e 1850 wons (uns R$3,60). Se o passageiro usar diferentes categorias, vale o maior preço (metrô é o mais caro, por exemplo). E a distância também é levada em conta. Essas tarifas são válidas se você percorrer até 10 km de distância. Acima disso, é cobrado mais 100 wons (R$0,20 por cada 5 km extras).


Eu fico doidinha em Seul com 19 linhas de metrô e muitos ônibus. Ainda bem que, em Daejeon, tudo é bem mais simples. Aqui, a passagem em dinheiro custa 1200 wons (cerca de R$2,40). Mas, com o T-Money, esse valor passa para 1100 wons (R$2,20). E é possível fazer três integrações utilizando o cartão, tanto entre ônibus quanto entre metrô e ônibus. A diferença do metrô é que, acima de 10 km, vale a mesma regra de Seul, com a cobrança de 100 wons (R$0,20) para cada 5km extras percorridos. Mas, nas estações, eles colocam placas (como as da foto abaixo) informando quanto você vai pagar dependendo do seu destino (e dá para checar no aplicativo do celular também).


   

Há ainda descontos por faixa etária. Quando se vai comprar o cartão do T-Money, há algumas opções com valores reduzidos para crianças e adolescentes. Até os seis anos de idade e acima dos 65 anos, a tarifa sai de graça. Mas em Daejeon, por exemplo, quem tem entre 7 e 12 anos paga apenas 350 wons (uns R$0,70) e, para adolescentes de 13 a 18 anos, o valor passa para 750 wons (R$ 1,50).  Para fazer esse cartão, é preciso comprovar a idade por meio de um “Youth Card” ou uma carteira de estudante. No entanto, mesmo sem o cartão do T-Money, há tarifas diferenciadas para crianças e adolescentes que paguem em dinheiro (a tabela abaixo mostra isso).



Eu adoro Daejeon, porque é uma metrópole com cara de interior. Sua população é de “apenas” 1,5 milhão de habitantes, com uma área de 540 km2. Já Seul conta com mais de 10 milhões de pessoas circulando por um território com somente 605 km2 de extensão.  Só para comparar, o Rio de Janeiro, minha cidade natal, tem cerca de 6 milhões de habitantes em quase 1,2 mil km2 (o dobro do espaço urbano de Seul), enquanto na maior metrópole brasileira, São Paulo, mais de 11 milhões de pessoas moram em uma área de mais de 1,5 mil km2. A questão é que a Coreia tem muita gente para pouco espaço (embora eu tenha percebido que aqui é maior do que eu imaginava). Por isso, eles têm que se virar para fazer um transporte eficiente. O mais impressionante é que as coisas funcionam muito bem. Mas eu tenho esperanças de que um dia o carioca também possa ter orgulho de seu sistema de transporte. Tomara!

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 Esse foi o segundo post da série "Isso que é transporte público!" sobre os sistemas de mobilidade urbana na Coreia do Sul. O primeiro pode ser lido aqui e foi publicado há umas duas semanas. O próximo será sobre os sistemas de transporte rápidos, como corredores de ônibus, metrô e trem-balas. E o legal é que esse mês teve uma novidade interessante sobre esse assunto.

domingo, 3 de novembro de 2013

Isso que é transporte público! – Parte 1 (Ônibus municipais)

Como nos últimos posts eu só mencionei minha locomoção por bicicleta, achei que estava na hora de falar do transporte público da Coreia (principalmente do de Daejeon). Esse é um assunto que renderia teses e teses de mestrado e doutorado e a questão é que é muito difícil você se perder quando se pega um ônibus, por exemplo (ainda mais se você consegue ler algo de coreano). Já o metrô de Daejeon é simples até demais, porque conta apenas com uma linha, diferentemente do de Seul, que tem 19 (sendo nove municipais e o restante metropolitano).

Um guia das rotas de ônibus de Daejeon, que peguei na International Community   

 Quando o tema é transporte público, a Coreia realmente é um modelo: wi-fi dentro de todos os modais, sistema de anúncio da próxima parada nos ônibus, aplicativo no celular que te diz a posição exata da linha que você deseja pegar (tem o mesmo nos pontos), integração ônibus-metrô com possibilidade de pegar entre três e cinco tipos de transportes diferentes pagando uma só tarifa (que em média custa o equivalente a um dólar). A lista de benefícios é grande e olha que não cheguei nem na metade.

Para conseguir visualizar melhor essa maravilha, pense em quando você chega num ponto de ônibus em Daejeon e se depara com algo assim: 


 
No fundo de todas as marquises dessas paradas, você encontra diversos mapas da cidade. Cada mapa mostra uma região e todas as opções que existem para poder chegar onde se deseja. Isso é muito útil até para os moradores locais. Quando eles estão indo a algum lugar desconhecido, podem ficar mais tranquilos para achar o melhor caminho no próprio ponto. Simples assim, como se vê abaixo:



A telinha no canto direito da primeira foto é a que informa as linhas que param naquele ponto, o destino delas e a localização do próximo ônibus. Quando um deles está se aproximando, uma voz informa que dentro de instantes a linha tal chegará àquele local, o que também pode ser acompanhado pelo celular. Isso me tem sido muito útil. Antes de sair de casa, eu sempre checo quanto tempo meu ônibus vai demorar. Se eles dizem quatro minutos, saio correndo. Se for dez minutos ou mais, dá até para fazer um lanchinho extra.





Dentro dos ônibus, o passageiro tem wi-fi gratuito e até um relógio mostrando a hora naquele momento. Há várias placas informativas contendo os horários de circulação daquele veículo, com os nomes de todas as “estações” daquela linha. Além de estar escrito, ainda há uma gravação anunciando a cada parada os nomes dos dois próximos pontos.





O problema disso é que tanto as placas quanto a voz geralmente são apenas em coreano, o que restringe um pouco o alcance dos turistas. A única informação que também é dita em inglês é quando a parada tem integração com o metrô ou é uma universidade ou ponto turístico famoso. Se você quiser fugir desses lugares badalados, que se vire para entender o idioma.

Outra coisa positiva é que todos os ônibus têm ar-condicionado ou aquecedor. Mas, não sei se os motoristas são treinados para usar esses recursos apenas em casos extremos, porque geralmente fica um calor infernal dentro dos ônibus, mas ninguém abre a janela. Realmente não entendo porque os coreanos não fazem isso. No início, eu até achava que não tinha como abri-las. Até que um dia eu sentei perto da janela e me dei conta de que minha intuição estava errada. Só sei que quase sempre eu frito lá dentro, mesmo quando está uns 5ºC lá fora... Vai entender.



Bom, como esse assunto de transporte público é muito extenso, vou deixar para falar de tarifas, trem-balas, metrôs e ônibus intermunicipais em outros posts.