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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A nova onda dos centros de saúde pós-parto (산후조리원)

Quando minha cunhada estava com seis meses de gravidez, meu marido me contou que ela já tinha reservado um centro de saúde pós-natal (산후조리원) e estava começando a pagar as prestações, que somadas chegavam a mais de 6 mil dólares. Foi aí que eu descobri o que era. Espécie de “resorts médicos”, com SPA, doulas e enfermeiras 24h à disposição e até limusines, esses locais têm sido cada vez mais comuns, principalmente em Seul. E é aí que as novas mamães têm preferido passar seus primeiros dias após o nascimento da criança, embora nem todo mundo possa arcar com as despesas. O preço varia entre 5 e 10 mil dólares.


Quartos lembram hotéis ou o conforto de casa
Em vez de seguir as antigas tradições coreanas e ir direto para casa, como mencionado em outro post, a mulher e o bebê ficam nos centros de saúde pós-natal com todo o conforto e ajuda necessários no início da vida materna e recebem o auxílio que precisam na recuperação física e emocional do estresse causado pelo parto. Esses centros oferecem uma estadia de cerca de duas semanas com tudo incluído: refeições, cuidados com a pele, massagens. Além disso, enfermeiras ficam disponíveis o dia inteiro tomando conta do bebê e dando as orientações necessárias sobre amamentação e outros cuidados. As visitas são restritas.

Já faz 18 anos que os centros de saúde pós-natal existem na Coreia. Em 1997, quando o primeiro desses centros foi inaugurado, a taxa de natalidade no país era uma das menores do mundo, com 1,3 filhos por casal. No início, era uma forma alternativa das doulas poderem exercer seu trabalho, mas acabaram se tornando centros para conforto das famílias. Mesmo com o valor elevado, existem filas de espera e precisam ser agendados com meses de antecedência.
Mamães recebem ajuda de enfermeiras e doulas
Em Gangnam, bairro de Seul conhecido como centro do mercado de luxo coreano, encontram-se os mais famosos desse gênero na Coreia: o Saint Park e o MH Postpartum Care Center. O primeiro conta com paredes de pedra, iluminação relaxante e um pavilhão luxuoso com tema de praias de Bali. As refeições são preparadas com ingredientes orgânicos e usam produtos para pele importados da Suíça, além do serviço de limusine (foto). O segundo oferece saunas feitas com hinoki, madeira japonesa usada em templos e palácios.

Foto: www.mygoyang.com

A mídia coreana tem divulgado essa como a mais nova onda do país a ser exportada, assim como o K-Pop ou os Kdramas. Com origem na Coreia, o modelo dos centros de saúde pós-parto é algo inédito no mundo e já começou a atrair a atenção de estrelas mundiais, como a atriz japonesa Koyuki Kato, que atuou em “O Último Samurai”, ao lado de Tom Cruise. E deve ter cada vez mais gente interessada nas facilidades proporcionadas por esses locais.
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Eu, particularmente, prefiro ficar em casa nesse momento. Por mais prático que seja, a mulher tem um instinto materno e pode pesquisar informações. Assim, mesmo sozinha e sem nenhuma ajuda, dá para se virar bem. E falo isso porque comigo aconteceu desse jeito. Meu marido me deu suporte na primeira semana e, depois que ele voltou a trabalhar na África, ficamos só eu e o bebê. Mas, para quem tem dinheiro sobrando, deve ser ótimo passar pelo período do pós-parto com todo esse aparato. Muito chic, gente!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Como funciona a medicina tradicional coreana

No meu primeiro semestre na universidade de Chungnam, fizemos um passeio para a Expo Internacional de Medicina Tradicional de Sancheong (foto), um evento grandioso que serve para apresentar detalhes de uma modalidade clínica coreana milenar, que tem um olhar diferenciado sobre as doenças, pensadas a partir do equilíbrio entre o corpo e a mente. Desde então, passei a conhecer um pouco sobre alguns tratamentos de saúde no país, marcados por acupuntura, ervas medicinais, além do fato de os médicos terem uma sensibilidade incrível de, apenas pelo toque no pulso do paciente, conseguir detectar anomalias em seu corpo. Outros ainda, por um aparelho que mostra detalhes da retina, podem até saber características psicológicas da pessoa. Nem preciso dizer que fiquei bastante impressionada.

Na Expo de Medicina Tradicional, um pouco dessa prática milenar

Dentre as diversas experiências que tive com a medicina tradicional coreana, no entanto, o ápice foi no final de 2013, um pouco antes de eu me casar. A família do meu marido nos levou para um vilarejo quase 3h distante de Daejeon para um check-up anual com um médico ancião (de 95 anos), que era um dos mais famosos do país. O consultório dele ficava no meio do nada e me lembrou muito aqueles mestres de artes marciais de filmes orientais, isolados em uma montanha meditando ou algo do gênero. Esse senhor, que mal escutava direito, ao avaliar meu pulso, já ficou com uma cara de preocupado e disse que eu tinha um monte de problema de saúde: de circulação, coração, etc. Quando me questionou sobre minha menstruação e eu o informei que ela era irregular, ele constatou que essa era a causa de tudo.

O médico, então, me passou um tratamento com ervas medicinais, com custo de mais ou menos 400 reais, para reparar essa anormalidade.  Enquanto isso, meus sogros gastaram mais de 1,5 mil reais, cada, com outros remédios indicados por ele para se manterem saudáveis. A questão foi que, pouco mais de um mês depois, eu descobri que estava grávida. Minha sogra chegou à conclusão de que esse senhor é bom para tratamentos de fertilidade e o indicou para minha cunhada, que já estava tentando ter filhos há mais de dois anos, sem sucesso, e tinha sofrido um aborto pouco tempo antes. Coincidência ou não, no mês seguinte, ela também descobriu que estava esperando uma linda menininha, que nasceu no início desse ano.

Ervas medicinais no consultório de ancião no interior da Coreia

Coreanos se orgulham muito de sua medicina tradicional e costumam confiar bastante nela. Por isso, há diversos centros que praticam esse modelo espalhados pelo país, conhecidos como 한의원 (lê-se haneu-won). A família do meu marido costuma ir, pelo menos, uma vez ao mês, até para relaxar e tentar curar certas dores causadas por estresse e outros problemas do dia a dia. Eu frequentei esses lugares algumas vezes e tive uma ótima experiência. E acaba não saindo tão caro, porque os planos de saúde cobrem parte dos custos. Mas, mesmo tentando manter as origens, desde 1876, o sistema de saúde europeu, com hospitais em estilo semelhante ao do Brasil, vem sendo utilizado na Coreia, conforme já dito em outro post.

Teoria médica coreana

Baseada em uma mistura de ideias taoístas e confucionistas, a teoria médica coreana é focada em quatro componentes básicos do universo: natureza, humanidade, temperamento e vida. E também são quatros os fatores que compõem o ser humano: uma pessoa mais yang, mais yin (aqueles tristes ou com raiva), menos yang e menos yin (aqueles com características mais felizes), de acordo com o temperamento e personalidade de cada um. Além disso, também é aplicado o método curativo, que se baseia na noção de que o equilíbrio do corpo está ligado à mente. Por isso, ervas medicinais e acupuntura são algumas práticas geralmente utilizadas para tratamento a partir dessa concepção.

A prática da medicina tradicional coreana antigamente

Existem alguns tipos diferentes de centros de medicina tradicional. Atualmente, a maioria deles é composta por médicos que iniciam a análise do paciente pela medição do pulso. Alguns anciãos são famosos pela sensibilidade em, apenas pelo toque, perceber onde há um desequilíbrio que possa vir a dar origem a uma doença ou, no caso de quem já está enfermo, de encontrar as causas disso. Alguns locais mais modernos usam um aparelho que avalia, pela retina do paciente (foto), quais são os problemas da pessoa, não somente físicos, mas também psicológicos. Por meio da coloração, forma e de riscos encontrados dentro do olho, é possível saber características como se aquele indivíduo é nervoso ou calmo e até detectar doenças mais graves, como câncer.

Mapa da retina em um hospital de Daejeon

Qual a diferença entre a medicina coreana e a chinesa?

Existem três fatores principais que diferenciam a medicina tradicional coreana da chinesa. O primeiro deles é a forma como cada um observa as pessoas: os chineses, de fora para dentro, enquanto que os coreanos pensam nos fatores internos como mais importantes que os externos. A segunda diferença está nos 보약 (boyak), remédios que os coreanos tomam quando estão fracos e pálidos, sendo o ginseng o mais famoso deles. A junção da mente e do corpo para considerar um tratamento ideal é o terceiro e último fator de divergência entre os coreanos e chineses.  Heo Joon, um dos pais da medicina coreana, acreditava que o ser humano não pode viver sem a natureza e que tudo o que existe no mundo nos afeta de alguma forma. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

10 fatos curiosos e interessantes sobre gravidez e maternidade na Coreia

Todo país tem seus costumes em relação à gravidez e ao que se pode fazer ou não assim que o bebê nasce. No Brasil, tem gente que diz que a mãe não pode lavar a cabeça depois do parto. E existem várias teorias e superstições tanto para a gestação quanto para o período do resguardo. Não é tão diferente na Coreia,  onde há diversas crenças e regras para o estágio entre esperar o bebê e o início da maternidade.

Por isso, eu preparei uma lista com dez fatos interessantes ou, no mínimo, curiosos sobre tradições coreanas para esse momento. Algumas são antigas e não são mais seguidas à risca. Outras, são mantidas com bastante rigor. Uma coisa que eu não mencionei, no entanto, foi que eles não têm o costume de fazer o enxoval do bebê muito antes dele nascer, só no final da gestação ou depois que a criança veio ao mundo. E segue a lista:

Cartaz de "Fated to Love you", novela coreana
que conta a história de uma jovem
que engravida de um desconhecido
1) Dez meses: Por causa do calendário lunar, os coreanos dizem que a gravidez dura dez meses. Cada mês, por essa perspectiva, conta com exatas quatro semanas. Assim, alguns bebês podem nascer até de onze meses, quando passam das 40 semanas, ou seja, do tempo médio esperado para a criança vir ao mundo. Se você disser na Coreia que nasceu de nove meses, eles vão achar que você é prematuro.

2) O anúncio: Anunciar a gravidez não é uma tarefa muito simples. Existe, culturalmente, uma ordem a ser seguida. Primeiro, a mulher deve contar para a sogra. Só depois informa ao marido e os próprios pais serão os terceiros a saber. Geralmente, por causa dos riscos de aborto até o terceiro mês, o anúncio para os de fora desse círculo familiar mais próximo só acontece a partir das 12 semanas de gestação, assim como muitos fazem no Brasil.

3) Comidas: A alimentação das grávidas tem diversas restrições. Coreanas costumam evitar comidas que não estejam íntegras, ou seja, quebradas ou desmanchadas, porque existe uma superstição de que o bebê pode ter má formação. Há também algumas crenças de que, se as mulheres comerem muito frango, a pele da criança será ruim, e se ingerirem carne de pato, o bebê vai falar que nem um. Além disso, certos alimentos podem fazer o parto ser mais complicado, como caranguejo, lula, ovos e peras. P.S.: Eu não sabia disso e tive vários desejos de comer lulas flambadas na Coreia. 

4) Comidas (2): Outra questão relacionada à alimentação é que, assim que o bebê nasce, a nova mamãe costuma ficar um mês inteiro apenas comendo sopa de algas ou miyeok-guk (미역국, foto). Eles dizem que esse prato ajuda na produção do leite materno, assim como na desintoxicação do corpo e limpeza do sangue da mulher para uma melhor recuperação. Depois do nascimento, também não é recomendável ingerir comidas frias ou congeladas, porque eles acham que pode causar artrite.

Coreanas comem sopa de alga por um mês depois que o bebê nasce

5) Filho homem: Por uma questão de manutenção das linhagens dos clãs, como eu já mencionei anteriormente, os coreanos esperam que o primeiro filho seja do sexo masculino, pois será ele que carregará o nome da família. Como não há a criminalização do aborto na Coreia, era comum (e pode acontecer até hoje) que abortassem quando detectassem que era menina. Por isso, existem mais homens que mulheres no país. O meu ginecologista mesmo ficava me questionando sobre o motivo da minha curiosidade para saber o sexo da criança. Quase respondi: “calma, doutor, só é um costume brasileiro preparar o enxoval desde cedo”.

6) Limpeza, beleza e silêncio: Coreanos acreditam que a mulher deve se manter limpa durante a gravidez. Por isso, ela deve evitar encostar em urina, fezes e coisas, pessoas ou animais mortos. Ir a enterros, por exemplo, não é muito auspicioso. Outra superstição é que, durante o parto, a mulher não deve olhar para coisas feias, pois a criança pode nascer assim. Além disso, aquelas que gritam quando estão dando à luz são vistas com maus olhos. A gestante deve se manter em silêncio e focar sua energia no nascimento.

7) Sonhos e espíritos: O poder dos sonhos é algo muito apreciado na cultura coreana. Para eles, se alguém sonha com flores no período da gestação, a pessoa terá um menino; se sonhar com frutas, no entanto, ela estará esperando uma menina. Quando a criança nasce, eles também costumam pendurar um "kumchul" (금줄, foto), que é uma corda trançada com alguns patuás, no portão de casa para proteger o filho dos maus espíritos.

O kumchul é colocado na porta de casa
 depois que a criança nasce

8) Parto normal: Na Coreia, há um estímulo ao parto normal. E a cesárea é mal vista pela sociedade. Como a taxa de fecundidade vem caindo nos últimos anos, já que as mulheres têm preferido focar na carreira a ter filhos, o governo oferece diversas formas de benefícios para as gestantes, inclusive um cartão (foto) que cobre quase todas as despesas do pré-natal, inclusive ultra em 3D, e do parto, se for normal, conforme eu já havia dito em um post. No entanto, se for cesárea, a pessoa terá que arcar com quase todo o custo do procedimento, que pode chegar a cerca de R$12 mil.

Cartão para gestantes com cerca de R$1 mil para usar no pré-natal

9) Reclusão: Durante os três primeiros meses da vida do bebê, a nova mamãe fica reclusa em casa e só sai para ir ao médico. Além disso, nesse período também deve ser evitado qualquer esforço, como cozinhar, tarefas domésticas e fazer compras. Também não é recomendável que ela tome banho por uma semana depois do parto. Por isso, geralmente, a avó materna da criança fica junto esses três meses dando suporte e ensinando como cuidar do novo membro da família.

Como dito no post anterior, não é comum receber visitas até os 100 dias do bebê, e é nessa data que a criança é apresentada aos parentes. Hoje em dia, virou moda entre as mamães de primeira viagem ficar internada por até um mês em centros de saúde pós-natal (산후조리원, foto), onde elas têm uma equipe que dá todo o suporte nos primeiros dias com o bebê, mas vou falar disso num próximo post.

A nova moda dos centros de saúde pós-natal

10) Placenta e cordão umbilical: Alguns coreanos guardam a placenta depois do parto para ser ressecada e utilizada como chá, meio parecido com a moda das pílulas de placenta, que algumas tomam em países europeus e americanos porque acreditam que ajuda numa melhor recuperação depois do parto. Enquanto isso, há outro grupo de coreanos que a enterra em algum local perto de casa, quando querem ter mais filhos. Se já tiverem crianças suficientes, também podem enterrá-la em algum lugar longe de casa. A família também enterra o cordão umbilical.

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Ainda há outros aspectos interessantes desse período. A rede médica coreana é excelente e eu não tenho nada a falar de ruim sobre meu pré-natal. Como eu sou estrangeira, só me disseram que não é bom ir às consultas sozinha, por causa do preconceito de alguns atendentes. Então, geralmente, a minha sogra me acompanhava, já que meu marido estava trabalhando em outro país. Além disso, os partos geralmente acontecem em hospitais ligados a universidades, mas há também pequenos centros de saúde que dão suporte no parto normal, assim como é possível contratar doulas para isso ou ter a criança em casa (algo mais comum no interior). Espero que tenham gostado.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Os 100 dias de vida de um bebê coreano

Antes do nosso bebê nascer, a primeira recomendação que recebi do meu marido foi: não fique tirando fotos da criança até ela completar 100 dias. Quando questionei o motivo, ele explicou que os coreanos têm o costume de não apresentar os filhos para parentes e amigos até esse marco, quando já se passaram mais de três meses de vida. É porque, na Coreia, as mães e recém-nascidos ficam esse tempo sem sair de casa por causa da fragilidade dos dois, com medo de adquirir doenças. Foi quando percebi o simbolismo dessa data, que permanece até os dias de hoje.

Os 100 dias de um bebê são marcados por muita comida
e uma sessão de fotos
Foto: Lee Doval
Há várias teorias que explicam o início da tradição dos 100 dias, chamada de Baek-il (백일), seguida não somente na Coreia, mas também em outros países do Leste Asiático, como China e Japão. Antigamente, muitos bebês morriam antes dos três meses, quando a medicina não era tão desenvolvida. Assim, quando chega o 100º dia de vida do bebê, as famílias fazem uma grandiosa festa, quase tão importante quanto a de um ano (também celebrada bastante na Coreia) e eles convidam uma grande quantidade de pessoas. Acredita-se que, se você dividir alguns pratos especiais com 100 pessoas, os filhos terão uma vida longa e saudável. 

Existem dois momentos principais da festa mais tradicional. O primeiro é quando membros da família dão graças aos três deuses que cuidam da vida do bebê enquanto ele cresce, chamados de Samsin (삼신). Depois, numa segunda etapa, eles rezam para que a criança tenha riqueza (재악), vida longa e sorte (초복). E quatro pratos não podem faltar: baekseolgi (백설기), representando o frescor e limpeza; injolmi (인절미), para dar paciência, songpyeon (송편), para bons pensamentos; e susupo-ttteok (para evitar maus pensamentos).
 Baekseolgi (백설기), bolos de arroz decorados Foto: jaiso.com
Injolmi (인절미), mais bolos de arroz com recheios e coberturas diferentes
Foto: 
uifarm.com
Songpyeon (송편), bolos de arroz usados no Ano Novo lunar
Foto: 
blog.daum.net
Atualmente, foram acrescentados outros costumes que marcam a data, como é o caso de uma sessão de fotos da criança. Nessa geração da Internet, divulgação de imagens é fundamental. No entanto, por ficarem esses 100 dias sem poder mostrar o bebê, acabou se tornando essencial como forma de apresentação dele para o mundo. Geralmente, ela se veste com roupinhas fofas, tradicionais, vestidinhos, no caso das meninas e terninhos, quando meninos.

As fotos dos 100 dias podem ser bem criativas ou simplesmente fofas
Foto: Lee Doval

Também são apresentadas, geralmente, algumas comidas à criança, como bolo de arroz, sopas e frutas, porque eles acham que é a partir desse momento que ela pode começar a se alimentar de outras coisas além do leite materno. Outra tradição comum é dar anéis ou pulseiras de ouro 24k ao bebê e, depois, quando a criança crescer e não couber mais nela, o acessório é transformado em uma jóia para a filha (se for menina) ou para a futura esposa do filho (se for menino). Além disso, um costume que também foi mantido é o de raspar a cabeça da criança nessa data para que o novo cabelo possa crescer mais forte e com mais rapidez. E cada família ainda pode criar suas próprias tradições. É uma festa realmente muito rica.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ano Novo e sistema de idade na Coreia

Eu nem acredito que, a partir do dia 1º de janeiro, meu bebê de três meses vai completar 2 anos na Coreia do Sul. Mas seria ainda pior se ele tivesse vindo ao mundo no dia 31 de dezembro. É difícil para um brasileiro pensar que uma criança recém-nascida já teria, com um dia de vida, 2 anos. E isso graças ao sistema de idades utilizado em alguns países do Leste Asiático. Embora tenha surgido na China, hoje em dia, muitos chineses nem sabem como funcionava isso no país deles. Pelo menos, mais de 90% dos meus amigos chineses ficavam muito confusos com a idade dos coreanos.

Foto: http://www.emagasia.com/

                Na Coreia, eles acreditam que, quando se nasce, você já tem um ano. E existe uma data de aniversário universal, que, atualmente, é em 1º de janeiro, ou seja, no dia do Ano Novo do calendário gregoriano (o mesmo que se usa no Brasil). Isso significa que, se alguém nasce dia 31 de dezembro, já tem 2 anos logo no dia seguinte. Antigamente, essa comemoração de mudança de idade era feita no primeiro dia do lichun (em coreano, 입춘), o primeiro período solar dos 24 existentes em um ano, que geralmente cai no dia 4 ou 5 de fevereiro. Dessa forma, não se acrescenta um ano de vida na data do nascimento da pessoa, mas no Ano Novo.

E, de forma simbólica, eles incluem como refeição de Réveillon o tteok-kuk  (떡국), ou sopa de bolo de arroz. Assim, na ceia de todo dia 1º de janeiro, eles incorporaram esse costume, assim como no Ano Novo do calendário lunar, que é uma das maiores festas dos país, em que eles reúnem toda a família para celebrar juntos. Pela tradição coreana, você “comeria” mais um ano, simbolizando, assim, o ato de envelhecer. Inclusive, eles usam como expressão idiomática para alguém mais velho ou idoso que aquela pessoa “comeu muitos anos”. Eu tinha uma professora de coreano na Chungnam National University (CNU) que brincava que tinha apenas 18 anos, já que ela tinha abolido essa sopa do envelhecimento desde que era mais jovem.

"Sopa do envelhecimento", que eu comi na virada de 2013/2014

Há uns cinco anos, a KBS, emissora pública de TV coreana, fez um programa especial de ano novo sobre o perigo de se pedir uma das modalidades dessa sopa no Brasil. Se você incluir pasteizinhos que a gente conhece às vezes como gyoza, mas que os coreanos chamam de mandu (만두), ela vira tteok-mandu-kuk (떡만두국). Mas, se você falar rápido esse nome, soa exatamente como um palavrão em português. E o vídeo abaixo mostra uma matéria em que a repórter questiona brasileiros – em Brasília, segundo eles, mas na verdade, era na Av. Paulista –, se eles já haviam experimentado essa iguaria. E o resultado é hilário.


No Japão, Vietnã e Coreia do Sul, o lichun (입춘) também é usado por videntes ou religiosos tradicionais como data para indicar o envelhecimento. No entanto, a ideia de um aniversário universal desapareceu de quase todos os países da esfera cultural do Leste Asiático, China e Japão, sendo trocado pelo sistema ocidental. Só a Coreia do Sul e algumas partes do Vietnã têm mantido essa tradição. Muitos coreanos, inclusive, não têm noção de que essa regra não é a mesma no restante do mundo. Por isso, quando for perguntar a idade de um coreano, é preciso tomar cuidado e verificar se ele sabe como funciona em outros países.

 Além disso, a maioridade coreana é aos 20 anos. É a partir daí que eles podem ser presos, ingerir bebida alcoólica e tirar a carteira de motorista. Isso quer dizer que, na idade ocidental ou brasileira, algumas pessoas seriam emancipadas aos 18, enquanto outras somente com 19, dependendo da data de nascimento do indivíduo. Nesse sentido, quem nasceu no dia 31 de dezembro é mais sortudo, já que se torna adulto antes de quem veio ao mundo em janeiro. Mas, para quem tem problemas com o envelhecimento, fazer aniversário nos primeiros dias do ano é uma dádiva e um alívio.  
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Enfim, eu sempre fiquei me perguntando o porquê de os coreanos quererem ser mais velhos que as pessoas dos outros países. Até a China e o Japão já desistiram desse sistema, mas a Coreia do Sul tem mantido firmemente essa tradição etária. Eu acho bem interessante as diferenças culturais e ver que, mesmo com a globalização, alguns países conseguem seguir com seus costumes, mesmo que pareçam meio loucos ou bem diferentes para pessoas de outros lugares do mundo. Mas, na convivência com estrangeiros, a gente acaba se acostumando a essas diferenças e entendendo certas coisas. Adoro ter uma família multicultural.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Coreanos nascidos fora do país

Muitos são os benefícios de ter pais de países diferentes: saber falar mais de uma língua, ter uma experiência multicultural e, talvez a melhor parte seja a tal dupla nacionalidade. Quando eu decidi ter meu filho no Brasil, me veio à mente a questão de como eu faria para registrar a criança na Coreia. Meu marido me explicou que seria fácil e que, inclusive, ele poderia ter outro nome, como eu tinha explicado no post anterior. Fiquei rindo pensando como uma pessoa teria dupla identidade. Mas isso não só é possível como é comum em um país onde existe uma métrica muito específica na hora de nomear alguém.



Então, quando meu bebê nasceu no Brasil, há um mês e três semanas, aproveitamos que cinco dias depois meu marido iria para a Coreia, e providenciamos rapidamente uma certidão de nascimento para ele. Além disso, precisava de uma tradução juramentada para coreano ou inglês. Se eu morasse em São Paulo, talvez seria fácil achar um tradutor para coreano, mas, no Rio de Janeiro, optamos pelo inglês mesmo. Na Coreia, foi necessário levar esse documento a uma sub-prefeitura, que é um órgão do governo dividido por áreas administrativas da cidade (nome do bairro + 청 [chong], foto). Também é necessário apresentar a certidão de casamento dos pais e o certificado de relação familiar (가족 관계 증명서).


Pronto. Poucos dias depois de nascer, ele já tinha registro no Brasil e na Coreia, ou seja, uma dupla nacionalidade, que vai poder manter até os 18 anos. Quando alcançar a maioridade, terá que optar por uma só, por questões militares, já que os homens são obrigados a servir o Exército na Coreia do Sul. A questão foi na hora de escolher o nome dele, que meu marido decidiu por Min-Ho (민호). Isso quer dizer que ele quebrou a tradição da família, pois todos os meninos da geração do nosso filho (ou seja, os primos dele) deveriam ter a sílaba “Seob” (섭) no nome. Mas, de acordo com ele, essa terminação soava muito mal, mesmo tendo um significado interessante (“harmonia”). E agora ele tem dois nomes: Alan Annunciação Choi e 최민호 (Choi Min-Ho).

Símbolos dos clãs coreanos: tradições são essenciais para esse povo

Outro caminho, talvez mais fácil para quem não pode ir à Coreia, seria registrá-lo na embaixada ou consulado coreano no Brasil. Isso leva um pouco mais de tempo (uns dois meses) para ficar pronto e é necessário apresentar alguns documentos: registro de casamento dos pais efetuado na Coreia; formulário de registro preenchido; certidão de nascimento original (sem devolução); passaporte original e cópia dos pais; registro familiar dos pais. Agora, só falta tirar um passaporte para ele tanto no Brasil quanto na Coreia e ele vai poder sair pelo mundo, visitando até 166 países, inclusive os EUA, sem necessidade de visto (meu baby está chique).

Eu também poderia tirar minha cidadania coreana, mas teria que abrir mão da minha nacionalidade brasileira (pelo menos, enquanto estivesse em território coreano), e é um processo bem demorado e trabalhoso. Por isso, decidi continuar com meu passaporte brasileiro mesmo e, se for para os EUA, entro na fila para tirar visto. Fazer o quê? Na verdade, estrangeiros podem conseguir a cidadania coreana e há diversos interessados nessa fila. Escrevi sobre isso no BrazilKorea, site que atualizo e, quem tiver curiosidade, pode saber mais aqui.
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Eu vivo pedindo desculpas e vou ter que fazer isso mais uma vez. Fiquei longe daqui por mais de um mês. Cuidar de um bebê tão lindo e gracioso dá trabalho demais. E deixa a gente cansada e sem dormir. Estou planejando vários posts interessantes, mas me faltam determinação e tempo para isso. Ainda mais agora que, até dia 13 de dezembro, tenho provas da faculdade e estou estudando pra caramba. E ainda tem a monografia. Mas prometo que escrevo pelo menos mais alguma coisinha até o fim do ano. Podem deixar sugestões do que gostariam de saber e vai ficar mais fácil para mim. Até mais!

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Como se formam nomes coreanos

Pode parecer meio louco, mas já faz dois anos que eu e meu marido (na época, ainda noivo) já tínhamos decidido como nossa futura filha iria se chamar. Escolhemos o nome Hana (하나) por significar “primeira” em coreano e por soar bem em português. Quando descobri que estava grávida, ainda sem saber o sexo, comecei a pensar também em alguma opção masculina que pudesse ser genérica para os dois países. Na tentativa de formular nomes e mais nomes, percebi que não seria tão fácil assim. Quando mostrei a lista que havia feito para a minha sogra, ela gargalhou e veio me explicar que, sendo homem, o bebê teria que seguir a tradição da família e ter a sílaba “seob (섭)” no final do nome, assim como as outras crianças da mesma geração. Resumindo, o menino, sendo tanto brasileiro quanto coreano, precisa ter dois registros com nomes diferentes, o que não seria necessário se fosse menina.
  
Nomes coreanos têm apenas três sílabas, sendo a primeira delas o sobrenome

Foi quando eu constatei o quanto os clãs ou shijok (씨족) são importantes na Coreia. Os coreanos são um dos povos que mais preserva suas raízes e essa noção de ancestralidade. E se dividem nesses grupos. Meu marido disse que eles sabem exatamente a que geração da família pertencem pelo nome e isso fica registrado em um livro, em que vão acrescentando os novos integrantes de acordo com o nascimento dos filhos, netos, bisnetos. Cada homem que nasce dá continuidade ao clã. Há, assim, uma tradição de que o primeiro filho seja, preferencialmente, do sexo masculino, já que, culturalmente, a mulher passa a pertencer ao clã de seu marido quando se casar. E, infelizmente, existem mais homens que mulheres na Coreia porque a quantidade de abortos é ainda grande quando descobrem que é menina.  Por isso que o obstetra coreano relutava em me dizer o sexo do meu bebê e, foi com alívio na voz, que anunciou que era menino.

No "Parque das Raízes" (뿌리 공원), o símbolo do clã do meu marido

Aí, surgiu a questão de escolher o nome da criança, o que não tinha muitas opções, já que havia sido escolhida a última sílaba do nome dele. Sendo o meu bebê integrante da 32ª geração dos Choi (최ou 崔), todos os seus primos e irmãos teriam que incluir no nome o Seob (섭 ou燮), que significa harmonia ou combinação. O problema é que há poucas combinações legais com essa sílaba. E acabou sendo escolhido o nome Min Seob (민섭). Esse sistema é adotado para indicar as gerações de cada clã, tornando mais fácil o resgate das histórias deles. E isso diz muito sobre um povo marcado pela “cultura do coletivo”, que sempre pensa no conjunto.  E aí, o bebê, nascendo no Brasil, levaria o nome que eu escolhesse, que no caso foi Alan (soa que nem em inglês), por ser uma opção mais internacional. Como temos planos de morar em outros países, achei que seria a alternativa ideal.
               
Como formar nomes coreanos
           
     É engraçado que nunca disse isso, mas existe uma métrica para formar nomes coreanos. O meu, por exemplo, tem quatro sílabas, o que é considerado muito longo para o estilo deles, que segue um padrão definido bem curtinho, super diferente do que a gente tem como referência: primeiro, vem o sobrenome da família do pai, ou nome do clã, de apenas uma sílaba, como Lee (이), Kim (김), Park (박), Choi (최), etc.; em seguida, aparece o nome, que pode ter até duas sílabas, mas existem alguns com apenas uma e, em casos raros, com três, embora não sejam muito aceitos por eles, por serem considerados “difíceis”. Coreanos têm um pouco de aversão a nomes longos. Por isso, o meu foi reduzido a A-ri-an (아리안), embora minha sogra me chame de A-ri-a (아리아). Quanto menor, melhor.
                Uma nova tendência, no entanto, tem surgido com a influência da cultura europeia e americana na Coreia. Para as meninas, nomes como Suzi e Jéssica têm se tornado mais comuns. Em relação aos homens, por causa daquela questão do clã, eles inventam um nome em inglês ou outro idioma quando conversam com estrangeiros. Meu marido, por exemplo, eu conheci como Jerry, mas o nome dele na Coreia é Byung Kyoun (병균), que foi escolhido na mesma linha da geração do clã (todos os primos levam esse Byung no nome), e foi causa de muito bullying na infância dele, porque essa palavra significa exatamente germes ou vírus. Tadinho, toda vez que a gente ia em alguma consulta médica na Coreia e eu entrava com ele, éramos obrigados a ouvir dos médicos alguma piadinha com o nome dele. Fico pensando como deve ter sido quando ele era menor.

Nomes ocidentais como Jéssica têm sido mais comuns na Coreia

Enfim, já sabe que se você conheceu um coreano chamado Matt, Jack, Juan ou qualquer coisa parecida, provavelmente, ele inventou ou recebeu sugestão de algum professor de inglês. A minha cunhada, por exemplo, se apresentou como Reese, embora o nome verdadeiro dela seja outro. Confesso que eu ainda não decorei como ela se chama porque, até para mim que estou aprendendo o idioma, os nomes coreanos são muito complexos. Foi um sacrifício decorar os nomes dos meus professores. E meus colegas chineses? É engraçado que existe uma regra também para converter os nomes chineses para o coreano.

Na Coreia, eles costumavam usar antigamente os mesmos caracteres dos chineses. Mas, há mais de 600 anos, um rei criou o hangeul (한글), sistema de escrita coreano, cuja data de criação é tão importante que virou feriado na Coreia (e foi nesse mês, dia 9 de outubro) [ver foto]. Isso significa que os coreanos ainda aprendem na escola esse sistema chinês, chamado de hanja (한자), só que a forma de leitura foi adaptada ao idioma deles, ou seja, tem um som diferente. Por isso, quando os chineses vão para a Coreia, eles passam a ser chamados pela forma como se lê lá. Assim, minha amiga 雪霞 (Xue Xia) ganhou o nome de Seol-ha (설하) na Coreia; Lin Zin virou Im Jong (임정) ; Wan Yin passou a se chamar Man-eun (만은). Raros são os nomes que mantêm a pronúncia do chinês, que é muuuuito diferente da coreana. Por isso, para quem achava que era a mesma coisa, eu já aviso que não é.

Evento promovido pela prefeitura de Daejeon  no dia do Hangeul em 2013

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                Bom, desculpa ter demorado tanto (mais de um mês) para postar algo novo, mas é que a rotina cuidando praticamente sozinha de um bebê recém-nascido, somada ao trabalho home office e aos estudos da faculdade estão um pouco puxado para mim. Mas, agora que eu já me adaptei e que meu pequenino está quase com um mês de idade, acho que consigo postar com mais frequência. Semana que vem, explico como faz para registrar um baby nos dois países e, talvez, mais para frente, em relação a como obter a nacionalidade coreana. Além disso, agora estou atualizando o site BrazilKorea e fiz um post parecido com esse lá. Quem quiser conferir, é só acessar aqui.