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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Choque cultural (2) – Comida e etiqueta coreana

Comida é geralmente uma das maiores preocupações quando alguém visita um lugar novo. Já tinha mencionado isso quando falei das churrascarias brasileiras na Coreia, mas hoje o assunto é a gastronomia coreana, conhecida por ser apimentada, pouco gordurosa (às vezes) e ter muitas sopas, com legumes e verduras. Nos meus primeiros dias no país, foi bem difícil me acostumar com o kimchi (김치) (foto), que é acelga fermentada, base da culinária deles. Também demorei a me adequar a algumas regras de etiqueta na mesa, como comer arroz sempre com colher, cortar carne com tesoura, ou colocar o arroz do lado esquerdo da sopa. Realmente, para o paladar do brasileiro, alguns pratos coreanos não parecem, à primeira vista, muito apetitosos, mas, em pouco tempo, eu já estava apaixonada pela maior parte das comidas locais.  

Kimchi (acelga fermentada), principal acompanhamento da culinária coreana

E meu primeiro encontro com comida coreana não foi, na verdade, nem na Coreia nem no Brasil. Eu experimentei quando fui a Madri, na Espanha, em 2011. E, o que mais me chamou a atenção foi quando o Jerry pediu um prato e a carne veio crua. Fiquei apavorada pensando em como eu comeria aquilo, quando, de repente, o garçom abriu um buraco na mesa e a gente começou a cozinhá-la. Depois descobri que essa é uma característica das “churrascarias” coreanas. Quase todos os restaurantes são do estilo “faça você mesmo”. Eles gostam de fiscalizar a qualidade e de dar o ponto que quiserem. E, como carne bovina é um artigo de luxo na Coreia, geralmente, a preferência é pela carne de porco, sendo o corte mais popular no país a barriga suína ou samgyeopsal (삼겹살).

Em um restaurante coreano em Madri, me assustei quando veio a carne crua

Cozinhando barriga suína numa churrascaria em estilo coreano

E é nesse tipo de restaurante onde você tem que cortar a carne com a tesoura, o que foi outro choque cultural para mim. Em relação aos instrumentos na mesa, os coreanos têm várias regrinhas. Na maioria das casas, só se usam hashis, colheres e tesouras. Nada de garfo e faca, embora esses dois já estejam mais presentes nos restaurantes “modernos” e “ocidentalizados”. Não se come arroz com palitinhos, por exemplo, só com colher. Além disso, minha sogra ficava toda hora interrompendo minha refeição quando eu colocava o potinho de arroz do lado direito da sopa. Eles dizem que a forma certa de ser servida é do lado esquerdo, o que, para mim, até hoje, dá no mesmo, mas, para não criar atrito, tento seguir as normas da casa.

Mesa posta em uma casa coreana, com o arroz sempre do lado esquerdo da sopa

 Em relação aos pratos, a comida meio que se repete toda semana. E não é só na casa dos meus sogros. Conversando com minha professora de coreano, ela explicou que é meio que uma regra nacional. Eles vão intercalando as sopas, que sempre acompanham arroz, kimchi e outros complementos que variam de família para família. No topo da lista de sopas mais populares entre os coreanos, está o miyeokguk (미역국) (foto), que é feito de algas e também é o prato que deve ser comido nas datas de aniversário. Esse é um must-have da culinária coreana.  Em segundo lugar, está o kimchi jjigae (김치찌개) (foto), sopa elaborada com kimchi. A minha sogra coloca junto carne de porco e tofu, o que fica uma delícia. Outros pratos entram nesta lista como o doenjang jjigae (된장 찌개) (foto), tipo de guisado que leva pasta de soja fermentada e tofu; além do curry coreano (foto).

O miyeokguk, sopa de algas que os coreanos comem no aniversário

O kimchi jjigae, sopa de kimchi (acelga fermentada)

O doenjang jjigae, sopa de tofu com pasta de soja fermentada

Um delicioso curry coreano

Já me deu água na boca só de falar. A lista é longa, mas esses são apenas alguns exemplos. Na casa do meu marido, além dos acima citados, toda semana precisa ter ainda sopa de inhame e a de agrião, especialidades da minha sogra, que trabalhou durante 25 anos como cozinheira do refeitório da KAIST, maior universidade tecnológica coreana. Aliás, além de arroz e kimchi, um dos acompanhamentos favoritos dos coreanos é a batata-doce. Eles adoram comê-la com casca e tudo. Existe, inclusive, torta de batata-doce, uma das sobremesas mais apreciadas por esse povo. Um prato que geralmente é o favorito dos estrangeiros na Coreia é o bulgogi (불고기) (foto), uma carne mais adocicada, mas que, por levar carne bovina, nem sempre está ao alcance de toda família coreana e acaba sendo uma opção para datas especiais. 

Bulgogi, carne adocicada, considerada prato favorito dos estrangeiros

Outro choque cultural é quando se resolve ir a um restaurante tradicional coreano. Tirar o sapato para entrar em determinados locais, como hospitais, é algo normal no país. E, nesses estabelecimentos, acontece da mesma forma. Então, você já tem que se preparar psicologicamente antes, colocando uma meia bonitinha. Além disso, geralmente, se senta em almofadas no chão, o que, para mim, é extremamente desconfortável. Na Coreia, um ponto positivo dos restaurantes é que os acompanhamentos são sempre refil, ou seja, pode pedir mais kimchi e legumes à vontade e não será paga nenhuma taxa extra por isso. Além disso, por uma regra social, não se pode negar água a ninguém, o que significa que ela vai ser sempre gratuita.

 
Restaurante tradicional coreano, com mesas baixas, tesoura para cortar carne, água e acompanhamentos de graça
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Esse é um dos choques culturais mais gostosos para o estrangeiro. A gente paga bastante mico quando não conhece direito algumas regras do país, mas depois acaba se adaptando. Só que alguns erros podem ser sérios do ponto de vista deles. Servir bebida alcoólica para mais velhos, então, requer bastante perícia e informação, que eu não tinha na época. Fui repreendida pela minha sogra por não segurar a garrafa de soju com as duas mãos, o que posso contar com mais detalhes depois. Isso significa que fui extremamente rude e não respeitei as hierarquias, uma falta grave na Coreia. Algumas regras de etiqueta coreanas são bem complexas e eu cometi muitas gafes e atritos com meus sogros por causa de pequenos detalhes que fazem toda a diferença para eles.

5 comentários:

  1. Amei todos os seus posts, você me tirou varias duvidas. Parabéns pelo seu ótimo trabalho e espero que continue escrevendo... ^^

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    1. Obrigada, Ísis. Com certeza, vou continuar escrevendo. Tem algum assunto em específico sobre o qual você esteja curiosa ou que tenha dúvidas? É bom saber. :)

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  2. Oi Ariane !
    Meu namorado é coreano e temos planos de visitar a Coréia em breve !
    Estou adorando os seus posts pois nada melhor que conhecer a Coréia e suas tradições pelos olhos de uma brasileira né ?
    Beijão !!

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    1. Oi, Jaqueline. Que legal! Conheço algumas histórias de brasileiras que namoram / casaram com coreanos. É muito bom conhecer pessoas na mesma situação. Depois, se quiser, me adicione no Facebook para a gente se falar. https://www.facebook.com/arianera

      E, se tiver algum assunto que tenha curiosidade, é só falar que eu posso fazer um post sobre isso também. :)

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  3. Ariane, você me tirou várias duvidas, mas sempre aparece outras.. kk
    Penso em fazer intercambio para a Coreia, mas dizem que você não consegue fazer amigos, verdade??

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