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quinta-feira, 26 de março de 2015

Atividades gratuitas para estrangeiros em Daejeon

Antes de minha viagem para a Coreia, como queria estudar coreano, pesquisei muitas informações na Internet, comparei preços e benefícios entre as universidades e outras opções gratuitas. Uma das minhas primeiras descobertas, no entanto, foi o Daejeon International Community Center (DICC), hoje DIC, que oferece diversos eventos e atividades de graça para estrangeiros. E foi lá também que conheci a primeira brasileira na cidade onde morava. Fiquei mais de seis meses na Coreia sem encontrar nenhum conterrâneo.
Aulas de coreano, aluguel de hanbok e grupos de discussão no DIC
O atual Daejeon International Center (DIC) é administrado pela prefeitura de Daejeon, cidade na região central do país, e mantém aulas de coreano, bazares, grupos de estudo sobre assuntos globais, tutorias com nativos, além de prestar informações e promover diversos eventos para unir as comunidades de estrangeiros na Coreia. Tem até aluguel de hanbok (roupas tradicionais coreanas) por um preço super em conta. E eu adorei desde o início.

Quando fui pela primeira vez, eram oferecidas aulas de coreano de graça durante os dias de semana à tarde (menos na quarta-feira). Hoje em dia, eles mudaram isso e só tem aos sábados. Na época, eu aproveitava e saía correndo diariamente da Chungnam National University (CNU), onde fazia o curso intensivo do idioma, e ia ter uma formação complementar no DIC. Deu muito certo para mim. Em três meses, meu nível de coreano já estava razoável, de forma que eu conseguia entender a minha sogra bastante, já que ela é coreana e não fala outra língua.

Nesse centro, localizado em frente à estação do trem de Daejeon, encontram-se à disposição, materiais gratuitos em mais de dez idiomas, com dicas de roteiros culturais e trajetos dos ônibus da cidade. Há ainda uma biblioteca com livros de aprendizado de coreano ou a respeito do país e seus costumes. Também é possível alugar hanboks para eventos. O espaço ocupa dois pisos do prédio: no 4º andar, está a biblioteca e a recepção, enquanto que o 3º andar conta com três salas de aula.

Para se inscrever no aluguel dessas vestimentas, é necessário apenas apresentar passaporte ou cartão de estrangeiro (Alien registration card) e pagar uma taxa de 12 mil wons (cerca de 30 reais) caso o hanbok seja utilizado fora das instalações do DIC ou por mais de uma hora seguida. Esse valor é revertido para os custos de lavanderia. O prazo para devolução é de, no máximo, 48 horas.

Nas salas do andar inferior, são oferecidos cursos de coreano com professores nativos. As aulas acontecem sempre aos sábados e são divididas entre quatro níveis, do básico ao avançado, além das turmas especiais de preparação para o Topik, exame de proficiência em língua coreana. Os horários são definidos a cada trimestre com a formação dos grupos iniciando no primeiro sábado de janeiro, abril, julho e outubro. A ficha de inscrição está disponível no site do DIC. E o material didático utilizado são os livros da Seogang University.

Há ainda grupos de discussão formados no Daejeon International Center relativos a temas de civismo global, em inglês, coreano, chinês, e vietnamita. Jovens universitários ou demais estrangeiros podem ainda debater outros assuntos internacionais. Além disso, há os bazares de caridade, com doação de itens novos, usados e semi-novos para venda. A equipe desse centro também está sempre pronta para atender visitantes de diversos países.

:: Daejeon International Center (DIC)::

Endereço: 300-160 4th floor Juwon BLD 799, Daejeon-ro, Dong-gu, Daejeon (em frente à estação de trem de Daejeon)
Telefone: 042-223-0789 / FAX : 042-223-0790 / E-mail : dicc@dicc.or.kr
Horário de Funcionamento: Segundas, terças e sextas: 09h às 18h / Quartas e quintas: 9h às 21h / Sábados: 9h às 17h
Não abre aos domingos e feriados
Linhas de Ônibus: 1, 2, 101, 102, 103, 201, 202, 30, 31, 311, 313, 314, 317, 52, 501, 511, 512, 514, 60, 62, 63, 603, 605, 606, 607, 611, 612, 613, 614, 615, 616, 701, 711, 802
Metrô: Daejeon Station, saída 2
Site: http://en.dicc.or.kr/smain.html

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Este post é uma versão de outro que escrevi para o BrazilKorea, site que eu atualizo.

terça-feira, 10 de março de 2015

Como os coreanos reagem a estrangeiros?

Depois do post sobre a opinião dos coreanos a respeito do Brasil, uma pergunta que ouço muito é relativa à reação dos coreanos quando encontram com estrangeiros. O engraçado é que, quando comecei a conversar com meu marido, ele me disse que já era adolescente na primeira vez que viu uma pessoa que não era oriental, e, mesmo assim, ficou chocado por causa da diferença. Mas isso foi na década de 1990. Hoje em dia, a quantidade de estrangeiros na Coreia aumentou consideravelmente. E, com isso, é (um pouco) mais comum encontrar pessoas de diferentes etnias nas ruas do país.


Consequentemente, tornou-se mais fácil de aceitar a presença de gente de diversas nacionalidades. A grande parte dos coreanos é super simpática, e mesmo que eles sejam um povo mais fechado, sempre tem alguns que gostam de puxar papo para saber de onde você é e o que faz no país. Além disso, para aqueles que não têm traços asiáticos, os olhares serão inevitáveis, já que a maioria dos coreanos ainda mantém certa homogeneidade, sendo, de certa forma, parecidos. E é bom ressaltar que eles não são todos iguais, como muita gente costuma dizer no Brasil.

Minha sogra me disse uma vez que é mais fácil para os coreanos me aceitarem por causa da cor da minha pele e cabelo. Se eu fosse loira ou negra, segundo ela, talvez houvesse mais estranhamento. De qualquer forma, eu vou ser sempre vista como estrangeira na Coreia, não importa o quão fluente eu fale coreano ou o quanto siga os padrões deles. Assim, separei uma lista de algumas reações que percebi se repetirem entre os coreanos quando encontram com um estrangeiro:

Estrangeiros asiáticos: Chineses e japoneses, por exemplo, conseguem passar despercebidos no meio da multidão e não chamam tanto a atenção. Mas exatamente a semelhança pode criar situações constrangedoras, principalmente se a pessoa não souber coreano ou desconhecer certos fatores culturais. Eu, por exemplo, saía muito com colegas chineses e, embora meu nível do idioma fosse melhor que o deles e eu que tivesse feito alguma pergunta, os atendentes de lojas e restaurantes cismavam em falar olhando diretamente para os chineses que estavam comigo. Aí, meus amigos não entendiam e eu que respondia, mas os coreanos continuavam me ignorando e só olhando para os outros de olhinhos puxados. Uma questão de identificação.

Atendentes de rede de fast food: Muita gente me dizia que não dá para se virar com inglês na Coreia. Ótimo! Eu queria mesmo praticar coreano. Chegava à lanchonete, pedia meu lanche usando todo o vocabulário de coreano que tinha aprendido e, então, o atendente retrucava com alguma pergunta em inglês.  Eu insistia no coreano e a pessoa continuava no inglês. Eu dizia que sabia coreano e parecia que tinha falado grego, literalmente. E isso foi mais comum do que eu imaginava. Aconteceu diversas vezes comigo. Enquanto você quer aprender o idioma deles, eles querem aproveitar para praticar inglês também.

Ajhumas: Consideradas o melhor que a Coreia tem a oferecer, as ajhumas (senhoras de meia idade com personalidade forte) são as que reagem à presença de estrangeiros da forma mais interessante. Se você foi à Coreia e nunca apanhou de uma, sorte a sua. Algumas dão tapas nas costas tão dolorosos que até deixam marcas. Mas não é que sejam pessoas ruins. Elas são ótimas. Eu experimentei a força dessas mulheres duas vezes. Uma ficou muito feliz com a minha presença, começou a rir sem parar e a dar tapinhas em mim. No dia seguinte, enquanto contava para uma amiga alemã o que aconteceu, a gente se deparou com outra  situação bem parecida.

Ajhuma que pediu para tirar foto comigo no Baekje Cultural Festival
Muitas adoram a presença de estrangeiros e acham super diferente. Por isso, ficam meio eufóricas e começam a falar alto contigo, riem apontando pra você (não para zombar, mas por achar interessante), te cumprimentam milhares de vezes. Eu ia muito com minha sogra ao SPA. As amigas dela sempre ficavam curiosas e vinham falar com ela alguma coisa sobre mim. E sempre ficavam impressionadas quando eu respondia algo em coreano. Coreanos, em geral, têm muito orgulho do idioma deles.

Evangélicos: Há muitas Testemunhas de Jeová e outras denominações de igrejas protestantes na Coreia. E eles adoram converter estrangeiros. Eu sempre fui um ímã para missionários diversos. Na primeira vez, achei a menina tão simpática. Ela disse que queria praticar inglês, foi conversando, pediu meu telefone. Quando vi, já estava quase indo ao culto, embora tivesse dito a ela repetidamente que eu era católica. E fui abordada dezenas de vezes, mas, depois de um tempo, já percebia as intenções do grupo e me esquivava. Eu confesso, no entanto, que sempre peguei os lenços umedecidos e balinhas que eles dão de brindes.

Interessados em praticar inglês: Conforme mencionado, vários coreanos abordam estrangeiros para praticar inglês, desde criancinhas até idosos. Uma menina de uns 7 anos, uma vez, me parou porque ela frequentava uma creche internacional e sabia inglês. Esse idioma, dizem eles, é tão difícil que eles precisam aproveitar cada oportunidade para fazer uso dele. Foram vários os casos de pessoas que começaram a falar comigo do nada, em inglês sempre, querendo puxar assunto, saber de onde eu sou. Teve um rapaz, certa vez, dentro de um ônibus, que gritou, apontando pra mim, em inglês, perguntando de onde eu era. Quando disse Brasil, ele ficou todo empolgado, dizendo que sabia espanhol (?) e que queria muito conhecer meu país.

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Enfim, as reações dos coreanos a estrangeiros são quase sempre positivas e em tom de surpresa e curiosidade. Não posso falar nada, porque até eu mesmo, no Brasil, quando percebo que tem algum grupo falando outro idioma, já fico super curiosa para saber de onde são. Inclusive, em alguns momentos, converso mesmo com eles e puxo assunto. Com os coreanos, é a mesma coisa. O problema é só que, depois de um tempo morando no país, a gente não acha mais tão bonitinho ser abordado várias vezes. Mas é algo inevitável e vai continuar acontecendo sempre.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A nova onda dos centros de saúde pós-parto (산후조리원)

Quando minha cunhada estava com seis meses de gravidez, meu marido me contou que ela já tinha reservado um centro de saúde pós-natal (산후조리원) e estava começando a pagar as prestações, que somadas chegavam a mais de 6 mil dólares. Foi aí que eu descobri o que era. Espécie de “resorts médicos”, com SPA, doulas e enfermeiras 24h à disposição e até limusines, esses locais têm sido cada vez mais comuns, principalmente em Seul. E é aí que as novas mamães têm preferido passar seus primeiros dias após o nascimento da criança, embora nem todo mundo possa arcar com as despesas. O preço varia entre 5 e 10 mil dólares.


Quartos lembram hotéis ou o conforto de casa
Em vez de seguir as antigas tradições coreanas e ir direto para casa, como mencionado em outro post, a mulher e o bebê ficam nos centros de saúde pós-natal com todo o conforto e ajuda necessários no início da vida materna e recebem o auxílio que precisam na recuperação física e emocional do estresse causado pelo parto. Esses centros oferecem uma estadia de cerca de duas semanas com tudo incluído: refeições, cuidados com a pele, massagens. Além disso, enfermeiras ficam disponíveis o dia inteiro tomando conta do bebê e dando as orientações necessárias sobre amamentação e outros cuidados. As visitas são restritas.

Já faz 18 anos que os centros de saúde pós-natal existem na Coreia. Em 1997, quando o primeiro desses centros foi inaugurado, a taxa de natalidade no país era uma das menores do mundo, com 1,3 filhos por casal. No início, era uma forma alternativa das doulas poderem exercer seu trabalho, mas acabaram se tornando centros para conforto das famílias. Mesmo com o valor elevado, existem filas de espera e precisam ser agendados com meses de antecedência.
Mamães recebem ajuda de enfermeiras e doulas
Em Gangnam, bairro de Seul conhecido como centro do mercado de luxo coreano, encontram-se os mais famosos desse gênero na Coreia: o Saint Park e o MH Postpartum Care Center. O primeiro conta com paredes de pedra, iluminação relaxante e um pavilhão luxuoso com tema de praias de Bali. As refeições são preparadas com ingredientes orgânicos e usam produtos para pele importados da Suíça, além do serviço de limusine (foto). O segundo oferece saunas feitas com hinoki, madeira japonesa usada em templos e palácios.

Foto: www.mygoyang.com

A mídia coreana tem divulgado essa como a mais nova onda do país a ser exportada, assim como o K-Pop ou os Kdramas. Com origem na Coreia, o modelo dos centros de saúde pós-parto é algo inédito no mundo e já começou a atrair a atenção de estrelas mundiais, como a atriz japonesa Koyuki Kato, que atuou em “O Último Samurai”, ao lado de Tom Cruise. E deve ter cada vez mais gente interessada nas facilidades proporcionadas por esses locais.
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Eu, particularmente, prefiro ficar em casa nesse momento. Por mais prático que seja, a mulher tem um instinto materno e pode pesquisar informações. Assim, mesmo sozinha e sem nenhuma ajuda, dá para se virar bem. E falo isso porque comigo aconteceu desse jeito. Meu marido me deu suporte na primeira semana e, depois que ele voltou a trabalhar na África, ficamos só eu e o bebê. Mas, para quem tem dinheiro sobrando, deve ser ótimo passar pelo período do pós-parto com todo esse aparato. Muito chic, gente!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Como funciona a medicina tradicional coreana

No meu primeiro semestre na universidade de Chungnam, fizemos um passeio para a Expo Internacional de Medicina Tradicional de Sancheong (foto), um evento grandioso que serve para apresentar detalhes de uma modalidade clínica coreana milenar, que tem um olhar diferenciado sobre as doenças, pensadas a partir do equilíbrio entre o corpo e a mente. Desde então, passei a conhecer um pouco sobre alguns tratamentos de saúde no país, marcados por acupuntura, ervas medicinais, além do fato de os médicos terem uma sensibilidade incrível de, apenas pelo toque no pulso do paciente, conseguir detectar anomalias em seu corpo. Outros ainda, por um aparelho que mostra detalhes da retina, podem até saber características psicológicas da pessoa. Nem preciso dizer que fiquei bastante impressionada.

Na Expo de Medicina Tradicional, um pouco dessa prática milenar

Dentre as diversas experiências que tive com a medicina tradicional coreana, no entanto, o ápice foi no final de 2013, um pouco antes de eu me casar. A família do meu marido nos levou para um vilarejo quase 3h distante de Daejeon para um check-up anual com um médico ancião (de 95 anos), que era um dos mais famosos do país. O consultório dele ficava no meio do nada e me lembrou muito aqueles mestres de artes marciais de filmes orientais, isolados em uma montanha meditando ou algo do gênero. Esse senhor, que mal escutava direito, ao avaliar meu pulso, já ficou com uma cara de preocupado e disse que eu tinha um monte de problema de saúde: de circulação, coração, etc. Quando me questionou sobre minha menstruação e eu o informei que ela era irregular, ele constatou que essa era a causa de tudo.

O médico, então, me passou um tratamento com ervas medicinais, com custo de mais ou menos 400 reais, para reparar essa anormalidade.  Enquanto isso, meus sogros gastaram mais de 1,5 mil reais, cada, com outros remédios indicados por ele para se manterem saudáveis. A questão foi que, pouco mais de um mês depois, eu descobri que estava grávida. Minha sogra chegou à conclusão de que esse senhor é bom para tratamentos de fertilidade e o indicou para minha cunhada, que já estava tentando ter filhos há mais de dois anos, sem sucesso, e tinha sofrido um aborto pouco tempo antes. Coincidência ou não, no mês seguinte, ela também descobriu que estava esperando uma linda menininha, que nasceu no início desse ano.

Ervas medicinais no consultório de ancião no interior da Coreia

Coreanos se orgulham muito de sua medicina tradicional e costumam confiar bastante nela. Por isso, há diversos centros que praticam esse modelo espalhados pelo país, conhecidos como 한의원 (lê-se haneu-won). A família do meu marido costuma ir, pelo menos, uma vez ao mês, até para relaxar e tentar curar certas dores causadas por estresse e outros problemas do dia a dia. Eu frequentei esses lugares algumas vezes e tive uma ótima experiência. E acaba não saindo tão caro, porque os planos de saúde cobrem parte dos custos. Mas, mesmo tentando manter as origens, desde 1876, o sistema de saúde europeu, com hospitais em estilo semelhante ao do Brasil, vem sendo utilizado na Coreia, conforme já dito em outro post.

Teoria médica coreana

Baseada em uma mistura de ideias taoístas e confucionistas, a teoria médica coreana é focada em quatro componentes básicos do universo: natureza, humanidade, temperamento e vida. E também são quatros os fatores que compõem o ser humano: uma pessoa mais yang, mais yin (aqueles tristes ou com raiva), menos yang e menos yin (aqueles com características mais felizes), de acordo com o temperamento e personalidade de cada um. Além disso, também é aplicado o método curativo, que se baseia na noção de que o equilíbrio do corpo está ligado à mente. Por isso, ervas medicinais e acupuntura são algumas práticas geralmente utilizadas para tratamento a partir dessa concepção.

A prática da medicina tradicional coreana antigamente

Existem alguns tipos diferentes de centros de medicina tradicional. Atualmente, a maioria deles é composta por médicos que iniciam a análise do paciente pela medição do pulso. Alguns anciãos são famosos pela sensibilidade em, apenas pelo toque, perceber onde há um desequilíbrio que possa vir a dar origem a uma doença ou, no caso de quem já está enfermo, de encontrar as causas disso. Alguns locais mais modernos usam um aparelho que avalia, pela retina do paciente (foto), quais são os problemas da pessoa, não somente físicos, mas também psicológicos. Por meio da coloração, forma e de riscos encontrados dentro do olho, é possível saber características como se aquele indivíduo é nervoso ou calmo e até detectar doenças mais graves, como câncer.

Mapa da retina em um hospital de Daejeon

Qual a diferença entre a medicina coreana e a chinesa?

Existem três fatores principais que diferenciam a medicina tradicional coreana da chinesa. O primeiro deles é a forma como cada um observa as pessoas: os chineses, de fora para dentro, enquanto que os coreanos pensam nos fatores internos como mais importantes que os externos. A segunda diferença está nos 보약 (boyak), remédios que os coreanos tomam quando estão fracos e pálidos, sendo o ginseng o mais famoso deles. A junção da mente e do corpo para considerar um tratamento ideal é o terceiro e último fator de divergência entre os coreanos e chineses.  Heo Joon, um dos pais da medicina coreana, acreditava que o ser humano não pode viver sem a natureza e que tudo o que existe no mundo nos afeta de alguma forma. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

10 fatos curiosos e interessantes sobre gravidez e maternidade na Coreia

Todo país tem seus costumes em relação à gravidez e ao que se pode fazer ou não assim que o bebê nasce. No Brasil, tem gente que diz que a mãe não pode lavar a cabeça depois do parto. E existem várias teorias e superstições tanto para a gestação quanto para o período do resguardo. Não é tão diferente na Coreia,  onde há diversas crenças e regras para o estágio entre esperar o bebê e o início da maternidade.

Por isso, eu preparei uma lista com dez fatos interessantes ou, no mínimo, curiosos sobre tradições coreanas para esse momento. Algumas são antigas e não são mais seguidas à risca. Outras, são mantidas com bastante rigor. Uma coisa que eu não mencionei, no entanto, foi que eles não têm o costume de fazer o enxoval do bebê muito antes dele nascer, só no final da gestação ou depois que a criança veio ao mundo. E segue a lista:

Cartaz de "Fated to Love you", novela coreana
que conta a história de uma jovem
que engravida de um desconhecido
1) Dez meses: Por causa do calendário lunar, os coreanos dizem que a gravidez dura dez meses. Cada mês, por essa perspectiva, conta com exatas quatro semanas. Assim, alguns bebês podem nascer até de onze meses, quando passam das 40 semanas, ou seja, do tempo médio esperado para a criança vir ao mundo. Se você disser na Coreia que nasceu de nove meses, eles vão achar que você é prematuro.

2) O anúncio: Anunciar a gravidez não é uma tarefa muito simples. Existe, culturalmente, uma ordem a ser seguida. Primeiro, a mulher deve contar para a sogra. Só depois informa ao marido e os próprios pais serão os terceiros a saber. Geralmente, por causa dos riscos de aborto até o terceiro mês, o anúncio para os de fora desse círculo familiar mais próximo só acontece a partir das 12 semanas de gestação, assim como muitos fazem no Brasil.

3) Comidas: A alimentação das grávidas tem diversas restrições. Coreanas costumam evitar comidas que não estejam íntegras, ou seja, quebradas ou desmanchadas, porque existe uma superstição de que o bebê pode ter má formação. Há também algumas crenças de que, se as mulheres comerem muito frango, a pele da criança será ruim, e se ingerirem carne de pato, o bebê vai falar que nem um. Além disso, certos alimentos podem fazer o parto ser mais complicado, como caranguejo, lula, ovos e peras. P.S.: Eu não sabia disso e tive vários desejos de comer lulas flambadas na Coreia. 

4) Comidas (2): Outra questão relacionada à alimentação é que, assim que o bebê nasce, a nova mamãe costuma ficar um mês inteiro apenas comendo sopa de algas ou miyeok-guk (미역국, foto). Eles dizem que esse prato ajuda na produção do leite materno, assim como na desintoxicação do corpo e limpeza do sangue da mulher para uma melhor recuperação. Depois do nascimento, também não é recomendável ingerir comidas frias ou congeladas, porque eles acham que pode causar artrite.

Coreanas comem sopa de alga por um mês depois que o bebê nasce

5) Filho homem: Por uma questão de manutenção das linhagens dos clãs, como eu já mencionei anteriormente, os coreanos esperam que o primeiro filho seja do sexo masculino, pois será ele que carregará o nome da família. Como não há a criminalização do aborto na Coreia, era comum (e pode acontecer até hoje) que abortassem quando detectassem que era menina. Por isso, existem mais homens que mulheres no país. O meu ginecologista mesmo ficava me questionando sobre o motivo da minha curiosidade para saber o sexo da criança. Quase respondi: “calma, doutor, só é um costume brasileiro preparar o enxoval desde cedo”.

6) Limpeza, beleza e silêncio: Coreanos acreditam que a mulher deve se manter limpa durante a gravidez. Por isso, ela deve evitar encostar em urina, fezes e coisas, pessoas ou animais mortos. Ir a enterros, por exemplo, não é muito auspicioso. Outra superstição é que, durante o parto, a mulher não deve olhar para coisas feias, pois a criança pode nascer assim. Além disso, aquelas que gritam quando estão dando à luz são vistas com maus olhos. A gestante deve se manter em silêncio e focar sua energia no nascimento.

7) Sonhos e espíritos: O poder dos sonhos é algo muito apreciado na cultura coreana. Para eles, se alguém sonha com flores no período da gestação, a pessoa terá um menino; se sonhar com frutas, no entanto, ela estará esperando uma menina. Quando a criança nasce, eles também costumam pendurar um "kumchul" (금줄, foto), que é uma corda trançada com alguns patuás, no portão de casa para proteger o filho dos maus espíritos.

O kumchul é colocado na porta de casa
 depois que a criança nasce

8) Parto normal: Na Coreia, há um estímulo ao parto normal. E a cesárea é mal vista pela sociedade. Como a taxa de fecundidade vem caindo nos últimos anos, já que as mulheres têm preferido focar na carreira a ter filhos, o governo oferece diversas formas de benefícios para as gestantes, inclusive um cartão (foto) que cobre quase todas as despesas do pré-natal, inclusive ultra em 3D, e do parto, se for normal, conforme eu já havia dito em um post. No entanto, se for cesárea, a pessoa terá que arcar com quase todo o custo do procedimento, que pode chegar a cerca de R$12 mil.

Cartão para gestantes com cerca de R$1 mil para usar no pré-natal

9) Reclusão: Durante os três primeiros meses da vida do bebê, a nova mamãe fica reclusa em casa e só sai para ir ao médico. Além disso, nesse período também deve ser evitado qualquer esforço, como cozinhar, tarefas domésticas e fazer compras. Também não é recomendável que ela tome banho por uma semana depois do parto. Por isso, geralmente, a avó materna da criança fica junto esses três meses dando suporte e ensinando como cuidar do novo membro da família.

Como dito no post anterior, não é comum receber visitas até os 100 dias do bebê, e é nessa data que a criança é apresentada aos parentes. Hoje em dia, virou moda entre as mamães de primeira viagem ficar internada por até um mês em centros de saúde pós-natal (산후조리원, foto), onde elas têm uma equipe que dá todo o suporte nos primeiros dias com o bebê, mas vou falar disso num próximo post.

A nova moda dos centros de saúde pós-natal

10) Placenta e cordão umbilical: Alguns coreanos guardam a placenta depois do parto para ser ressecada e utilizada como chá, meio parecido com a moda das pílulas de placenta, que algumas tomam em países europeus e americanos porque acreditam que ajuda numa melhor recuperação depois do parto. Enquanto isso, há outro grupo de coreanos que a enterra em algum local perto de casa, quando querem ter mais filhos. Se já tiverem crianças suficientes, também podem enterrá-la em algum lugar longe de casa. A família também enterra o cordão umbilical.

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Ainda há outros aspectos interessantes desse período. A rede médica coreana é excelente e eu não tenho nada a falar de ruim sobre meu pré-natal. Como eu sou estrangeira, só me disseram que não é bom ir às consultas sozinha, por causa do preconceito de alguns atendentes. Então, geralmente, a minha sogra me acompanhava, já que meu marido estava trabalhando em outro país. Além disso, os partos geralmente acontecem em hospitais ligados a universidades, mas há também pequenos centros de saúde que dão suporte no parto normal, assim como é possível contratar doulas para isso ou ter a criança em casa (algo mais comum no interior). Espero que tenham gostado.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Os 100 dias de vida de um bebê coreano

Antes do nosso bebê nascer, a primeira recomendação que recebi do meu marido foi: não fique tirando fotos da criança até ela completar 100 dias. Quando questionei o motivo, ele explicou que os coreanos têm o costume de não apresentar os filhos para parentes e amigos até esse marco, quando já se passaram mais de três meses de vida. É porque, na Coreia, as mães e recém-nascidos ficam esse tempo sem sair de casa por causa da fragilidade dos dois, com medo de adquirir doenças. Foi quando percebi o simbolismo dessa data, que permanece até os dias de hoje.

Os 100 dias de um bebê são marcados por muita comida
e uma sessão de fotos
Foto: Lee Doval
Há várias teorias que explicam o início da tradição dos 100 dias, chamada de Baek-il (백일), seguida não somente na Coreia, mas também em outros países do Leste Asiático, como China e Japão. Antigamente, muitos bebês morriam antes dos três meses, quando a medicina não era tão desenvolvida. Assim, quando chega o 100º dia de vida do bebê, as famílias fazem uma grandiosa festa, quase tão importante quanto a de um ano (também celebrada bastante na Coreia) e eles convidam uma grande quantidade de pessoas. Acredita-se que, se você dividir alguns pratos especiais com 100 pessoas, os filhos terão uma vida longa e saudável. 

Existem dois momentos principais da festa mais tradicional. O primeiro é quando membros da família dão graças aos três deuses que cuidam da vida do bebê enquanto ele cresce, chamados de Samsin (삼신). Depois, numa segunda etapa, eles rezam para que a criança tenha riqueza (재악), vida longa e sorte (초복). E quatro pratos não podem faltar: baekseolgi (백설기), representando o frescor e limpeza; injolmi (인절미), para dar paciência, songpyeon (송편), para bons pensamentos; e susupo-ttteok (para evitar maus pensamentos).
 Baekseolgi (백설기), bolos de arroz decorados Foto: jaiso.com
Injolmi (인절미), mais bolos de arroz com recheios e coberturas diferentes
Foto: 
uifarm.com
Songpyeon (송편), bolos de arroz usados no Ano Novo lunar
Foto: 
blog.daum.net
Atualmente, foram acrescentados outros costumes que marcam a data, como é o caso de uma sessão de fotos da criança. Nessa geração da Internet, divulgação de imagens é fundamental. No entanto, por ficarem esses 100 dias sem poder mostrar o bebê, acabou se tornando essencial como forma de apresentação dele para o mundo. Geralmente, ela se veste com roupinhas fofas, tradicionais, vestidinhos, no caso das meninas e terninhos, quando meninos.

As fotos dos 100 dias podem ser bem criativas ou simplesmente fofas
Foto: Lee Doval

Também são apresentadas, geralmente, algumas comidas à criança, como bolo de arroz, sopas e frutas, porque eles acham que é a partir desse momento que ela pode começar a se alimentar de outras coisas além do leite materno. Outra tradição comum é dar anéis ou pulseiras de ouro 24k ao bebê e, depois, quando a criança crescer e não couber mais nela, o acessório é transformado em uma jóia para a filha (se for menina) ou para a futura esposa do filho (se for menino). Além disso, um costume que também foi mantido é o de raspar a cabeça da criança nessa data para que o novo cabelo possa crescer mais forte e com mais rapidez. E cada família ainda pode criar suas próprias tradições. É uma festa realmente muito rica.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ano Novo e sistema de idade na Coreia

Eu nem acredito que, a partir do dia 1º de janeiro, meu bebê de três meses vai completar 2 anos na Coreia do Sul. Mas seria ainda pior se ele tivesse vindo ao mundo no dia 31 de dezembro. É difícil para um brasileiro pensar que uma criança recém-nascida já teria, com um dia de vida, 2 anos. E isso graças ao sistema de idades utilizado em alguns países do Leste Asiático. Embora tenha surgido na China, hoje em dia, muitos chineses nem sabem como funcionava isso no país deles. Pelo menos, mais de 90% dos meus amigos chineses ficavam muito confusos com a idade dos coreanos.

Foto: http://www.emagasia.com/

                Na Coreia, eles acreditam que, quando se nasce, você já tem um ano. E existe uma data de aniversário universal, que, atualmente, é em 1º de janeiro, ou seja, no dia do Ano Novo do calendário gregoriano (o mesmo que se usa no Brasil). Isso significa que, se alguém nasce dia 31 de dezembro, já tem 2 anos logo no dia seguinte. Antigamente, essa comemoração de mudança de idade era feita no primeiro dia do lichun (em coreano, 입춘), o primeiro período solar dos 24 existentes em um ano, que geralmente cai no dia 4 ou 5 de fevereiro. Dessa forma, não se acrescenta um ano de vida na data do nascimento da pessoa, mas no Ano Novo.

E, de forma simbólica, eles incluem como refeição de Réveillon o tteok-kuk  (떡국), ou sopa de bolo de arroz. Assim, na ceia de todo dia 1º de janeiro, eles incorporaram esse costume, assim como no Ano Novo do calendário lunar, que é uma das maiores festas dos país, em que eles reúnem toda a família para celebrar juntos. Pela tradição coreana, você “comeria” mais um ano, simbolizando, assim, o ato de envelhecer. Inclusive, eles usam como expressão idiomática para alguém mais velho ou idoso que aquela pessoa “comeu muitos anos”. Eu tinha uma professora de coreano na Chungnam National University (CNU) que brincava que tinha apenas 18 anos, já que ela tinha abolido essa sopa do envelhecimento desde que era mais jovem.

"Sopa do envelhecimento", que eu comi na virada de 2013/2014

Há uns cinco anos, a KBS, emissora pública de TV coreana, fez um programa especial de ano novo sobre o perigo de se pedir uma das modalidades dessa sopa no Brasil. Se você incluir pasteizinhos que a gente conhece às vezes como gyoza, mas que os coreanos chamam de mandu (만두), ela vira tteok-mandu-kuk (떡만두국). Mas, se você falar rápido esse nome, soa exatamente como um palavrão em português. E o vídeo abaixo mostra uma matéria em que a repórter questiona brasileiros em Brasília, segundo eles, mas na verdade, era na Av. Paulista , se eles já haviam experimentado essa iguaria. E o resultado é hilário.


No Japão, Vietnã e Coreia do Sul, o lichun (입춘) também é usado por videntes ou religiosos tradicionais como data para indicar o envelhecimento. No entanto, a ideia de um aniversário universal desapareceu de quase todos os países da esfera cultural do Leste Asiático, China e Japão, sendo trocado pelo sistema ocidental. Só a Coreia do Sul e algumas partes do Vietnã têm mantido essa tradição. Muitos coreanos, inclusive, não têm noção de que essa regra não é a mesma no restante do mundo. Por isso, quando for perguntar a idade de um coreano, é preciso tomar cuidado e verificar se ele sabe como funciona em outros países.

 Além disso, a maioridade coreana é aos 20 anos. É a partir daí que eles podem ser presos, ingerir bebida alcoólica e tirar a carteira de motorista. Isso quer dizer que, na idade ocidental ou brasileira, algumas pessoas seriam emancipadas aos 18, enquanto outras somente com 19, dependendo da data de nascimento do indivíduo. Nesse sentido, quem nasceu no dia 31 de dezembro é mais sortudo, já que se torna adulto antes de quem veio ao mundo em janeiro. Mas, para quem tem problemas com o envelhecimento, fazer aniversário nos primeiros dias do ano é uma dádiva e um alívio.  
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Enfim, eu sempre fiquei me perguntando o porquê de os coreanos quererem ser mais velhos que as pessoas dos outros países. Até a China e o Japão já desistiram desse sistema, mas a Coreia do Sul tem mantido firmemente essa tradição etária. Eu acho bem interessante as diferenças culturais e ver que, mesmo com a globalização, alguns países conseguem seguir com seus costumes, mesmo que pareçam meio loucos ou bem diferentes para pessoas de outros lugares do mundo. Mas, na convivência com estrangeiros, a gente acaba se acostumando a essas diferenças e entendendo certas coisas. Adoro ter uma família multicultural.